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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Reflexões Grundrissianas


Como forma universal da riqueza, o capital se diferencia de si mesmo apenas do ponto de vista quantitativo, ou seja, do ponto de vista de o sujeito ter mais ou menos capital – quando se é capitalista – ou mais ou menos salário – quando se é trabalhador assalariado. O aspecto qualitativo da riqueza social – o conjunto de valores de uso – importa, na esfera econômica, apenas como veículo de valor. É por isso que, sob o modo de produção capitalista, a forma social da riqueza é sempre impelida, por sua própria natureza, para além de seus limites imediatos: o horizonte da ampliação do valor tende virtualmente ao infinito. Somente por conta de sua natureza abstrata é que a forma social da riqueza capitalista – o valor – subordina progressivamente todas as atividades humanas a seus domínios. Marx lembra de acontecimentos do Império Romano, afirmando que a riqueza desfrutável “aparece como dissipação ilimitada, dissipação que procura igualmente elevar a fruição à imaginária ilimitabilidade devorando salada de pérolas” (Grundrisse, p. 210). Sob as condições de produção capitalistas, o valor atinge a sua forma mais desenvolvida. Assim, ao subordinar os produtos do trabalho que satisfazem necessidades que vão do “estômago à fantasia” à lógica auto-expansiva do valor, o caráter mercantil das coisas (especialmente, da força de trabalho) e a sua dinâmica acabam por impor determinações a todos os âmbitos, digamos, “extra-econômicos” da vida social. 

O significado social da “fruição imaginária ilimitada” a que Marx alude se referindo ao Império Romano é extremamente atual aos nossos tempos. Este significado, fundado na impressão de virtual inesgotabilidade da riqueza, acaba sendo internalizado pelos sujeitos, passando a compor os "instrumentos psicológicos" (Vigotski) que serão mobilizados em nossas consciências no planejamento de nossas atividades diárias. As necessidades a serem satisfeitas pelos sujeitos passam a ser elaboradas em termos de “fruição imaginária inesgotável”, o que significa, por exemplo, que a compra, a posse e o uso de determinada mercadoria satisfaz apenas por um instante fugaz, uma vez que a subjetividade, mal se encontrando com o objeto da necessidade anterior, já está mobilizada para o próximo objeto de desejo. Em termos individuais, a “dissipação ilimitada” é o modo de manifestação de uma subjetividade ideologicamente moldada para lubrificar as engrenagens invisíveis dos mecanismos de auto-valorização do valor, seja mediante a intensificação do trabalho ("trabalhando mais, eu ganho mais, eu compro mais"), seja na qualidade de consumidores compulsivos em busca de uma vida hedonista, que, contudo é realmente impossível.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Estou lendo: "O Significado (ou Sentido) Histórico da Crise da Psicologia", de Vigotski



Em O Significado (ou Sentido) Histórico da Crise da Psicologia, Vigotski argumenta a favor da necessidade de elaboração de uma psicologia geral como projeto que almeje, ao mesmo tempo, discutir a formulação das condições de cientificidade das disciplinas particulares da psicologia (ele se concentra especialmente na análise do behaviorismo norte-americano, da reflexologia russa, da psicanálise e da psicologia tradicional) e os conhecimentos produzidos em seus âmbitos específicos, articulando-os com a necessidade de garantir a unidade da psicologia através de uma psicologia geral que atuasse contra as tendências centrífugas presentes no desenvolvimento dessas ciências particulares a partir do momento que cada uma delas elevava o seu conceito essencial – derivado das descobertas em suas investigações particulares – ao estatuto de princípio explicativo geral para toda a ciência psicológica. 

Para ele, esta tendência centrífuga se expressava no modo como o desenvolvimento de cada disciplina particular convertia seus conceitos específicos diferentes entre si em fatos também diferentes entre si. O que era indubitável para uma corrente da psicologia – ele cita o exemplo do Complexo de Édipo da psicanálise –, não passava de uma ilusão para outras correntes. O estudo do comportamento, tão caro ao behaviorismo e à reflexologia russa, não comparecia sequer como campo de interesse para as outras disciplinas psicológicas. Cada uma agindo apenas no seu campo e referindo-se apenas a si mesma provocava uma independentização excessiva das suas descobertas. Ocorria, assim, um risco de que, sob a retórica de que não haveria problema algum em existir várias psicologias paralelas (princípio democrático-burguês de convivência mútua), se escondia a pretensão de cada disciplina se arvorar o papel e a função social de psicologia geral, ou seja, de ciência cujos conceitos e princípios explicativos seriam válidos para explicar o objeto da psicologia como tal.

Vigotski não poderia ser mais  claro ao dizer que “o conceito essencial que age como suporte da ciência, o que poderíamos denominar abstração primária, não só está determinando o conteúdo das disciplinas particulares, como também seu caráter integrador e, portanto, a forma de explicar os fatos, o princípio explicativo essencial da ciência” (p. 215). É com a constatação da existência desta tendência em que a abstração primária – o conceito essencial de cada disciplina particular (a psique para a psicologia tradicional, o inconsciente para a psicanálise e o comportamento para o behaviorismo e a reflexologia) – busca automaticamente trazer  consigo o seu correspondente princípio explicativo (respectivamente, o subjetivismo, a sexualidade e o reflexo condicionado) e estender a sua validade também automaticamente para toda a ciência psicológica sem maiores problematizações que Vigotski está preocupado. 

Segundo ele, existiria, “pois, uma tendência a estabelecer um princípio explicativo unitário e a que este atue a partir de fora dos limites em que nasceu a ciência, convertendo-se desse modo num princípio explicativo, não mais das categorias da realidade a que se referia no princípio, mas do sistema global da realidade, e não só da ciência em que surgiu, mas do sistema científico em sua totalidade. Esta tendência estaria na origem da rivalidade interdisciplinar pela supremacia” (p. 217). Se, num primeiro momento, o princípio explicativo nasce como categoria de realidade, isto é, como reprodução ideal do movimento da realidade, tende, contudo, a superar este âmbito e arvorar-se ao status de princípio explicativo geral. Assim, por exemplo, a psicanálise, que tem o inconsciente como seu conceito generalizador, teria a sexualidade como seu princípio explicativo correspondente. Supor a integração da diversidade de fenômenos psicológicos sobre a base do conceito do inconsciente teria como consequência tendencial querer explica-los a partir do princípio da sexualidade. Vigotski afirma que esta consequência não é inevitável, uma vez que mesmo no interior da psicanálise há correntes (Adler e Jung) que, embora se fundem sobre o conceito do inconsciente, não aceitam o princípio explicativo da sexualidade. Contudo, este fenômeno parece, como tendência, operar efetivamente na história da ciência.

Fica evidente, portanto, que garantir a unidade da psicologia passa a ser um trabalho hercúleo. Se se trata de disciplinas e correntes tão diferentes entre si, que contam com um acúmulo de materiais tão heterogêneos, como unifica-los em torno de uma psicologia geral? Ele responde: “Vimos que o substrato da unidade é dado fundamentalmente pela abstração primária. Mas a união de material heterogêneo – como defende a psicologia da Gestalt – não pode ser alcançada mediante a simples aposição da conjunção ´e´, mediante a simples união ou adição das partes, de modo que cada uma delas conserve o equilíbrio e a independência. A unidade consegue-se por meio da subordinação e o domínio, por meio da renúncia das disciplinas particulares à soberania em favor de uma ciência geral. (...) De forma que a unidade é o que determina o papel, o sentido e o significado de cada domínio isolado: isto é, não só determina o conteúdo da ciência, mas também a forma explicativa a ser adotada, o princípio de generalização que, com o tempo, à medida que a ciência evolui, se transformará em seu princípio explicativo” (p. 215-216).

O papel de mantenedor da unidade da ciência cabe à abstração primária, ao conceito essencial, que dá o suporte à estrutura teórica da ciência geral. A abstração primária, contudo, é o resultado de uma análise crítica da história da ciência - tarefa a que Vigotski se dedica neste texto - e não pode ser concebido como resultado de um simples processo de ultrageneralização de conceitos válidos para contextos particulares. Sendo resultado da crítica, a unidade que se alcança não é aquela de tipo caleidoscópico tão comum ao atual post modern way of pseudoscience. É, por isso, que a afirmação vigotskiana de que a unidade da psicologia só seria conseguida mediante a subordinação das disciplinas particulares ao domínio da ciência geral pode parecer, aos olhos relativistas que vicejam na cultura contemporânea, de um autoritarismo old fashion. No entanto, é preciso ressaltar que, para entender plenamente a amplitude do projeto teórico a que almejara Vigotski, é preciso ter em mente que o que estava em jogo era o futuro da ciência psicológica como ciência do novo homem, a ciência da transformação socialista do homem, e não estava relacionada simplesmente à produção de nichos de sobrevivência no mercado da competição acadêmica

Estudar este texto de Vigotski é fundamental não apenas para psicólogos, mas para todos aqueles que se interessam pela temática do método científico. É admirável perceber o modo como Vigotski fazia ciência - tão diferente do modo como comumente encontramos nos dias atuais. 

O que fica acima é apenas uma pequena gota no oceano de questões a que ele se propõe e desenvolve neste texto. É, realmente, de uma beleza de tirar o fôlego  para aqueles que conseguem se sensibilizar com o desprendimento pessoal de um homem que fez da busca pela verdade a divisa da sua vida.

VIGOTSKI, L. S. O Significado Histórico da Crise da Psicologia. In: Teoria e Método em Psicologia. São Paulo: Martins Fontes, 1996, pp. 203-417.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Monografia de Especialização em Teoria Histórico-Cultural: "Questões de Método em Marx e em Vigotski e seus desdobramentos para a compreensão das relações entre indivíduo e sociedade: aproximações iniciais"

Monografia escrita por mim para receber título de Especialista em Teoria Histórico-Cultural pelo Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, em 2011.

RESUMO

A apropriação da obra de Vigotski tem sido atravessada por vários vieses interpretativos, que vão desde aquelas que pretendem integrá-la à heterogeneidade de leituras no interior do que se convencionou chamar de programa pós-moderno até aquelas que pretendem resgatar sua significação própria a partir dos seus fundamentos teórico-filosóficos marxistas e de sua vinculação ao projeto de construção de uma sociedade comunista. Este estudo integra-se nesta segunda linha de aproximação à obra vigotskiana e pretende, a partir de uma discussão que articule as formas como as questões de método aparecem em Marx e em Vigotski, compreender as linhas mais gerais que permitam um melhor enquadramento da problemática das relações entre indivíduo e sociedade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Tempo do Uso e o Uso do Tempo

Da indolência da matéria única que havia
A explosão foi capaz de tirar
O tempo lento da formação
Do que há e houve.
Explodiu e inaugurou o que hoje há.
Há, mas não mais como havia.

Passou o tempo e o tempo passa.
Passou lento, passa depressa.
Antes, era pelo dia, pela noite, pelas estações.
A atividade humana criou o que existe
No tempo da natureza.
Usou seu tempo, criando usos seus.
Valorizado era seu uso.
Valores de uso.
Transformar para viver
Carências em necessidades.
A satisfação vinha com o tempo
E seu uso.
Valores de uso.

Agora, não mais.
Depressa passa o tempo.
Rápido ele passa
Mas para quem?
Uso do tempo acelerado
Ou acelerado uso do tempo?
Uso?
Mas para quem?
Para o uso?
Não mais.
Mas para "si" mesmo.
“Si”, quem? – pergunta o outro.
Para o outro? Não mais.
O uso é puro substrato, carcaça.
Concreto portador da abstração.
Coisa morta para o “Si” que se basta.

Foi uso.
Não mais.
Antes, usado.
Agora, usa.
E reduz.
Valor de uso.
Valor.
Valor de us.
Valor.
Valor de u.
Valor.
Valor de.
Valor.
Valor d.
Valor.
Valor.
Valor.

Foi uso. Não mais.
Antes, usado. Agora, usa.
Usa quem? – pergunta o outro.
E reduz.

28/02/2012.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Do Método (ou de como produzir textos acadêmicos)


- Tens aí o objeto.
- Não o vejo, mestre.
- Um momento: recortando bem, vês melhor agora?
- Mais ou menos. Ainda meio informe.
- Ah, claro, as arestas. Apare-as. Pronto. Está claro?
- Ficou até demais, mestre. Luminoso como o sol quase a cegar-me.
- Sem problemas. Tome estes óculos escuros.
- Oh, sim, percebo bem! Mas e agora? Como faço?
- Vê bem o objeto? Isole-o, separe-o dos outros, não o deixe cair, nem se mover. Sinta-o, contornando bem os seus limites. Agora, descreva-o.
- Como o vejo, mestre?
- Sim, tal como se lhe aparece. Assim o conhecerá bem.
- Entendo. E agora?
- Faça o mesmo com aqueles outros.
- Igualzinho?
- Claro! São de igual natureza.
- Perfeito. Agora os conheço!
- Qual o que! Ainda há que relacioná-los.
- Ah, sim. Como pude esquecer! Mas como o faço?
- Tens a hipótese, não tens? Teste-as.
- Testei.
- Escolha o sentido da determinação. Significou?
- Significou!
- No intervalo padrão?
- Sim.
- Pronto?
- Sim.
- Publique!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Da Inconsciência da Arte: sua pretensão

Inconscientemente, fiz
Assim mesmo
Quase sem saber

Surgiram versos amuados
Despretenciosos
Ambiciosos
Despretenciosamente ambiciosos
Ambiciosamente despretenciosos
Famintos, enfim.
Da vida necessitados e já moribundos

Da mesma forma, sem querer
Me vi ali, frente a frente
Criador e criatura,
imagem e semelhança:
um borrão

Tomei consciência do que senti
E, contra a vontade,
Concordei comigo mesmo.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Da Vontade Como Representação ao Focinho de Porco que Não é Tomada e Nem de Verdade É

Não se sabe nunca o que se vai escrever. Pode-se até ter uma ideia sobre o que escrever, mas do pensamento até as palavras e destas até o texto e deste de volta ao pensamento o caminho é longo, cheio de curvas e, se você se descuidar, pode desavisadamente entrar num looping e ver seu texto dividindo lugar com mobiletes velhas rodopiando em um imaginário globo da morte como se ele fosse um conjunto de elétrons em volta do núcleo atômico. A imagem não é exata e, por isso, mesmo tentando, pode não apenas não ajudar como, pior, invariavelmente atrapalhar. É a maldição do exemplo: de serventia que tem como simples representação, como tal, não pode ser tomado como a coisa que se quer representar. Por isso, se, ao invés de tentarmos compreender a coisa representada por meio da representação, fixarmo-nos na representação como coisa representada, confundimos o essencial com a aparência e, com este espírito, corremos o risco de querer plugar a torradeira elétrica no focinho do porco que - porque artificial - serve apenas como cofre para as moedas.

Advertência: é só um exemplo.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Liturgia

Acordara cedo e, ainda enfrentando mal a agressão da luz na retina, olhou diretamente ao espelho e se viu como todo dia tem se visto: sonolento. Sobre a pia do banheiro, produtos de higiene pessoal, marcas registradas, materializações das propagandas que o acompanhavam onde quer que ele fosse. Todos os seus sentidos recebiam a interpelação marqueteira: a televisão no horário da refeição, a internet durante o trabalho, o carro de som e os outdoors no caminho para casa. Não sabe por que, mas hoje, ao olhar para o tubo de creme dental, não achou aquilo natural. Lembrou-se do filme a que assistira certa vez em uma aula de sociologia: um operário que, num processo de adoecimento/esclarecimento, passou a contabilizar o valor das coisas que tinha em casa por unidades de tempo de trabalho. Quanto tempo do seu trabalho custaria o creme dental? O que significa os R$ 3,78 ainda visíveis na etiqueta colada no tubo de plástico (lembrou que, quando criança, os tubos eram de alumínio)? Time is money, já dizia Benjamin Franklin e Walras tremia em ouvir.

Acordara sozinho. Sua mulher viajara havia uma semana e ligara apenas duas vezes. Do creme dental até chegar em sua cadeira na frente de terminal do call center onde trabalhava ele demora normalmente 1h e 15 min. Neste tempo, ele faz apenas consumir: a pasta de dente, a escova de dente, o sabonete, o desodorante, a água, o café, a bolacha de água e sal, a energia elétrica, a bateria do mp4 que ele pluga no ouvido para isolar-se do barulho urbano enquanto pedala até a empresa.

Neste dia, não concordou com o apresentador do jornal da manhã, apertou a mão do porteiro da empresa, cumprimentou seus colegas, bateu o ponto, pegou o copo de café, sentou, ligou o computador e prestou atenção em todo este automatismo. Como naqueles momentos em que enrubescemos diante de uma situação embaraçosa, era como se a vida dele se tornasse objeto de sua consciência. Enrubesceu, teve vergonha de si mesmo e, de repente, prometeu a si mesmo atingir a meta do dia determinada pela empresa. Seria hoje a quintessência do empregado padrão. Seu objetivo: ganhar o olhar do patrão que, normalmente, não se dá conta da sua existência. Com seu nome aparecendo no n° 1 do painel de produtividade do dia, era possível que seu patrão procurasse saber quem era o colaborador do dia. Seria convidado para um cappuccino? Ganharia uma piscadela, um sorriso, um gesto de “jóia!” e um afetuoso tapinha nas costas? Precisava de um pouco de atenção. Tinha saudades da mulher.

Foi por pouco! Vendeu 41 serviços, superou a média e a expectativa, mas perdeu por 4 para a garota do cubículo 45. A gratidão do patrão seria para ela hoje e ele pensava em alguma forma de compensar sua necessidade de afeto. Lembrou-se dos amigos do futebol, que não via há muito tempo, mas sua esposa não gostava que ele jogasse futebol enquanto ela viajava: ciúmes. Pensou na sua irmã, mas ela dava aula até tarde e acordava muito cedo para levar o filho para a creche. Mandou uma mensagem de celular para seu melhor amigo da infância, que morava em outra cidade e este respondeu dizendo que lhe mandara um email com as fotos de uma gostosa de Florianópolis. Pelo jeito, o afago esperado teria que ser novamente auto-concedido. Os velhos amigos realmente nos conhecem e são capazes de captar nossas necessidades mesmo à distância. Era o que ele podia fazer naquele momento.

Parou em frente a um bar, acorrentou a bicicleta ao tronco de uma pequena árvore, sentou a uma mesa, retirou os fones de ouvido e pediu um chopp. “É hora da happy hour”, dizia o banner. Ele queria sentir-se feliz. Enquanto esperava, dividia sua atenção entre a televisão que transmitia futebol e aquela que mostrava um show de dupla sertaneja. As pessoas começavam a chegar em grupos e ocupavam rapidamente as mesas vazias. Sozinho, ele percebeu que a alegria é coletiva e aumenta com a concentração etílica no sangue.

Inevitável foi ter sua atenção tragada para o meio das conversas alheias. Tinha duas alternativas: uma moral, outra cômoda. A primeira dizia para ele voltar a colocar os fones de ouvido e abstrair-se dos assuntos dos outros, com o benefício de lhe afagar a ética, a vantagem de preveni-lo de inconvenientes, mas com o prejuízo de aumentar o risco de um problema de ouvidos (o volume das conversas combinadas deveria ser superado pelo volume do fone) e de os outros pensarem ele como um freak deslocado. A segunda, por outro lado, alimentava sua curiosidade, saciava sua vontade julgar os outros pelas suas opiniões e dava a sensação ilusória de estar integrado de alguma forma àquela pequena multidão. Tinha ainda uma terceira, mas ele havia se comprometido consigo mesmo que, hoje, tomaria, pelo menos 3 copos de chopp: era para o que dava o que tinha no bolso, sem contar os 10%. Ficaria, portanto, até o fim.

Chegou o primeiro copo e os fones ficaram na bolsa. A conversa o envolvia, sua atenção se dirigia ora para a mesa dos engravatados, ora para a mesa das secretárias de clínicas de saúde, ora para os trabalhadores do comércio. Lembrou-se mais uma vez daqueles filmes que mostravam pessoas que se perturbavam em meio à multidão, pois percebiam os ruídos, o barulho, a confusão das vozes como se fossem um intromissão do coletivo ao seu supostamente quieto e calmo mundo particular. Não sentiu isso e pensou que algo naquela narrativa estaria errada. Talvez o pressuposto.

Não se sentia afrontado pelos outros e suas conversas banais. Sentia-se, isso sim, mal integrado. Queria participar, queria contribuir, queria ser necessário a eles, queria, talvez, justamente o contrário do filme, isto é, queria mesmo era ser reconhecido pela multidão. Queria dizer para o de gravata listrada que o seu discurso aparentemente tão original reproduzia ipisis literis a fala do apresentador do jornal da manhã a que ele havia assistido. Queria falar para as secretárias que compartilhava com elas da opinião de que os médicos estão tratando seus pacientes como caixa-eletrônicos. Queria perguntar aos trabalhadores do comércio como exatamente funcionavam os esquemas das semanais “promoções-cai-preços-de-tudo” das grandes redes comerciais. Não procurava identidade, não procurava alteridade, não procurava autoridade, procurava a vida social. A vida individual, a vida familiar, a vida de vizinhança já não lhe bastava. Queria se aproximar de desconhecidos para conhecê-los sem que isso fosse interpretado como uma cantada, como inconveniência, petulância, estranheza, enfim.

Limitou-se, entretanto, a tomar vagarosamente os outros dois copos. Evitou o garçom para não ter que encarar seu olhar de desprezo por não pagar os 10%: pagou diretamente no caixa. O julgamento do dono do bar lhe era indiferente. Desacorrentou a bicicleta, recolocou os fones e pedalou diretamente para casa.

Sua mulher estava em casa. Recebeu-o com um jantar e uma surpresa: estava grávida. Seu coração bateu mais forte e a emoção extravasou em um sorriso, uma lágrima e um forte abraço seguido de um longo beijo. Jantaram juntos, ela contou tudo o que acontecera na viagem, gozaram duas vezes, dormiram juntos depois de mais de uma semana.

Acordou no outro dia antes dela. Preparou-lhe um café da manhã, mas, como ela teria hoje um dia de folga, levantaria mais tarde. De frente ao espelho do banheiro, os produtos de ontem ainda o interpelavam. Não deu bola, asseou-se e saiu. Despediu-se da mulher com um beijo e um carinho atrás da orelha. Não viria almoçar.

No caminho até o trabalho sentiu-se melhor do que no dia anterior. Lembrou-se alegremente que nem precisou recorrer ao email do velho amigo. Reconhecia-se alegre e confortado, mas estava certo de que algo lhe faltava. Só não sabia o que era. Agiu conforme a liturgia diária ao chegar ao trabalho. Sentou-se em seu cubículo e percebeu que a menina do 45 já estava vestindo a camisa da empresa. Pensou na mulher e no futuro filho. Faltava alguma coisa.

Não fora o empregado do dia hoje também. Quem venceu foi o menino do 11: uma diferença de 1 para o menino do 13. Teve salgadinhos, pois era comemoração do aniversário do 22. Não ficou, foi embora rapidamente. Mesmo caminho, não entrou no bar, chegou em casa. Abraçou a esposa, acariciou-lhe a barriga. Olhou para porta. Faltava alguma coisa.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Promessa de voltar à ativa

"Sei que ninguém se importa e não há razões para procurar porquês nem para condenações sumárias ou devidamente judiciadas com garantias à ampla defesa e ao contraditório. A internet não é lugar - nem mesmo virtualmente falando - para que se procurar convivências sociais por mais pós-modernas que elas sejam. Fiquei tanto tempo sem dar as caras, as letras e as manifestações de petulância que não seria nem ético, muito menos relevante cobrar, por exemplo, comentários do tipo "Quando voltas?", "Estamos com saudades!" e etc de possíveis ex-frequentadores deste blog. Seria muita falta de noção esperar que alguém tenha salvo este ridículo endereço em seus favoritos e esperasse ansioasamente por atualizações que não vinham e, se viessem, não acrescentaria nada à vida de ninguém. Como serve de emblemático exemplo esta postagem".

Dizia isto meu Super-Ego ao Id no processo de autoterapia inconsciente que nem mesmo Freud foi capaz de imaginar ser possível entre uma carreira e outra de sua atribulada vida. No processo transferencial de autocura, decidiram Id e Super-Ego a informar ao e a liberar o Ego para anunciar a quem desavisado fosse que, a partir de Hoje, fica reinaugurado a mais malsucedida experiência blogueira da pós-modernidade tupiniquim. Sem traumas, sem resquícios, sem sintomas psicóticos, garante o Super-Ego e confirma complacente o Ego. Nem tanto, insinua com uma piscadela o recoberto em camadas Id.


Que assim seja!