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quarta-feira, 29 de maio de 2013

"O Povo", de Luis Fernando Veríssimo

Não posso deixar de concordar com tudo o que dizem do povo. É uma posição impopular, eu sei, mas o que fazer? É a hora da verdade. O povo que me perdoe, mas ele merece tudo o que se tem dito dele. E muito mais.

As opiniões recentemente emitidas sobre o povo até foram tolerantes. Disseram, por exemplo, que o povo se comporta mal em grenais. Disseram que o povo é corrupto. Por um natural escrúpulo, não quiseram ir mais longe. Pois eu não tenho escrúpulo.

 
O povo se comporta mal em toda a parte, não apenas no futebol. O povo tem péssimas maneiras. O povo se veste mal. Não raro, cheira mal também. O povo faz xixi e cocô em escala industrial. Se não houvesse o povo, não teríamos o problema ecológico. O povo não sabe comer. O povo tem um gosto deplorável. O povo é insensível. O povo é vulgar.

A chamada explosão demográfica é culpa exclusivamente do povo. O povo se reproduz numa proporção verdadeiramente suicida. O povo é promíscuo e sem-vergonha. A super-população nos grandes centros se deve ao povo. As lamentáveis favelas que tanto prejudicam nossa paisagem urbana foram inventadas pelo povo, que as mantém contra os preconceitos da higiene e da estética.

Responda, sem meias palavras: haveria os problemas de trânsito se não fosse pelo povo? O povo é um estorvo.

É notória a incapacidade política do povo. O povo não sabe votar. Quando vota, invariavelmente vota em candidatos populares que, justamente por agradarem ao povo, não podem ser coisa boa.

O povo é pouco saudável. Há, sabidamente, 95 por cento mais cáries dentárias entre o povo. O índice de morte por malnutrição entre o povo é assustador. O povo não se cuida. Estão sempre sendo atropelados. Isto quando não se matam entre si. O banditismo campeia entre o povo. O povo é ladrão. O povo é viciado. O povo é doido. O povo é imprevisível. O povo é um perigo.

O povo não tem a mínima cultura. Muitos nem sabem ler ou escrever. O povo não viaja, não se interessa por boa música ou literatura, não vai a museus. O povo não gosta de trabalho criativo, prefere empregos ignóbeis e aviltantes. Isto quando trabalha, pois há os que preferem o ócio contemplativo, embaixo das pontes. Se não fosse o povo nossa economia funcionaria como uma máquina. Todo mundo seria mais feliz sem o povo. O povo é deprimente. O povo deveria ser eliminado.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"BOBOS I", de Luís Fernando Veríssimo




O bobo daquela corte tivera um acidente de trabalho – o Rei não entendera uma piada e mandara executá-lo – e o posto estava vago. O Procurador Real foi encarregado de procurar um novo bobo. Reuniu-se com seus assessores para fazer um levantamento do mercado de bobos.

- Quem é que está disponível?

- Bem... Tem o Gros.

- Ele não estava com o rei da Saxônia?

- Foi despedido. O rei queria piadas novas sobre chulé e flatulência e ele estava se repetindo.

- Hmmm. Decadente. Não se consegue o Gubio?

- Acho difícil. Está fazendo grande sucesso na Lombardia. É o reino mais divertido da Europa, atualmente. Eles não o largam.

- E o velho Plim?

- Ultrapassado. Muito trocadilho, imitação de galinha... Ninguém mais aguenta.

- Tem um cara novo... – interveio um dos assessores.

- Quem?

- Serbo, o Croata.

- Onde é que ele já trabalhou?

- Fez um teste na corte da Bulgária. Bom material. Fino. Inteligente. Não aprovou porque o rei dormiu.

- Não sei...

- Quem sabe a gente conversa com ele? Sem compromisso.

- Mandem buscá-lo.

Serbo, o Croata, foi localizado numa caravana de saltimbancos na Bavária. Foi chamado com urgência e em menos de dois meses apresentava-se ao Procurador Real, com seu alaúde e seu baú de truques. Era moço e entusiasmado.

- O que é que você faz? – perguntou o Procurador Real.

- Tudo. Só não engulo espada.

- Imitações?

- Faço uma galinha imitando um homem.

- Isso é diferente...

- Também canto, danço, faço mágica e me atiro de cabeça na parede. Com bom gosto, é claro.

- Ficou combinado que Serbo ficaria em experiência durante um mês. Se agradasse o Rei, seria incorporado à Corte. Ganharia comida, bebida e um canto só seu no canil. Antes de começar, quis saber:

- Há algum assunto proibido?

- Nenhum. Fora a papada da Rainha, nenhum.

- Posso fazer piada sobre tudo?

- Pode.

- A cara do Rei? O cavalo do Rei?

- Tudo.

- Dizer que o Rei é gato, burro, porco, cachorro?

- Pode até chamá-lo de animal. O bobo pode dizer tudo para o Rei. Na cara. O rei só não gosta de sutileza.

- Como, sutileza?

- Sugestão. Insinuação. Aí ele manda cortar a sua cabeça.

Serbo, o Croata, engoliu em seco. Apalpou a cabeça e comentou.

- Seria uma pena. Somos muito ligados...

- Outra coisa – disse o Procurador Real.

- O que?

- Não fale mal de arqueiros.

- Arqueiros?

- O Rei pertence à Excelsa Irmandade dos Arqueiros Reais. Não admite piada sobre arqueiros. Tudo menos arqueiros. Agora vá se preparar para a sua primeira apresentação.

O bobo saiu enumerando nos dedos, para não esquecer, as três coisas proibidas. Papada, sutileza, arqueiros. Papada, sutileza, arqueiros...

No começo da apresentação de estreia de Serbo, o Croata, houve um momento difícil. Foi uma charada em forma de verso que o bobo propôs: “Se o erro de um bobo é bobeada, o erro de um Papa é...” A Rainha ficou tesa no trono e o Rei quase levantou. Mas o bobo completou: “...impossível”. Todos respiraram aliviados. O resto da apresentação foi um sucesso. Nunca o Rei foi tão insultado.

O bobo chamou o Rei de tudo. Falou mal dos seus ministros, um por um. Criticou as orelhas de um, o bigode de outro, a barriga de um terceiro. O Rei dava gargalhadas. Todos davam gargalhadas.

- O que é que o povo diz às minhas costas, bobo? – perguntou o Rei.

- Não querem ser injustos, majestade. Querem vê-lo pelas costas antes de dizerem qualquer coisa.

Mais risadas.

- O povo quer ver sua caveira, majestade.

- O que?

- Para terem certeza de que os ossos são fortes e vossa majestade viverá muito.

- Ah...

- Majestade – continuou Serbo, preparando o seu gran finale, uma balada safada com cem variações picarescas em torno do bacalhau – responda se puder: qual é o peixe que mais agrada à mulher?

O Rei ficou sério de repente. Chamou o guarda e ordenou:

- Tranquem-no. Ele será decapitado ao amanhecer.

Para o Procurador Real, enquanto o bobo era levado para a masmorra, estupefato e arrastando seu alaúde, o Rei perguntou:

- Ele sabia que não era para criticar os arqueiros?

- Sabia.

- Pois então. Este reino é liberal. O bobo pode dizer tudo. Mas tem que respeitar as regras. Decapitem-no. E arranjem outro bobo.

O Procurador Real foi procurar o bobo na masmorra. Falou:

- Eu disse que não era para ser sutil...

- Mas o que foi que eu fiz?

- Criticou os arqueiros.

- Como? Eu ia falar em bacalhau!

- Bacalhau? O Rei pensou que fosse namorado.

O bobo sacudiu a cabeça. Condenado por um erro de interpretação. Só quando o Procurador Real já estava saindo pela porta da masmorra é que ele se lembrou de perguntar:

- E namorado, o que é que tem que ver com arqueiro?

Mas era tarde. A porta se fechou.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Estou Lendo "Grundrisse", de K. Marx


“Considerado desde o ponto de vista dessa diversidade natural, o indivíduo [A] existe como possuidor de um valor de uso para B e B, como possuidor de valor de uso para A. Sob esse aspecto, a diversidade natural os coloca reciprocamente de novo na relação da igualdade. Consequentemente, não são indiferentes um ao outro, mas se completam, se necessitam um do outro, de modo que o indivíduo B, enquanto objetivado na mercadoria, é uma necessidade para o indivíduo A e vice-versa; de modo que não só estão em uma relação de igualdade entre si, mas também em relação social recíproca. Mas isso não é tudo. Que a necessidade de um pode ser satisfeita pelo produto do outro, e vice-versa, que um é capaz de produzir o objeto da necessidade do outro e que cada um se enfrenta com o outro como proprietário do objeto da necessidade do outro, prova que cada um, como ser humano, vai além de sua própria necessidade particular etc. e se comporta um em relação ao outro como ser humano; que sua essência genérica comum é conhecida por todos. (...) Na medida em que agora essa diversidade natural dos indivíduos e das próprias mercadorias (...) constitui o motivo para a integração desses indivíduos, para a sua relação social como trocadores, relação em que são pressupostos e se afirmam como iguais, à determinação da igualdade soma-se a da liberdade. Ainda que o indivíduo A sinta necessidade da mercadoria do indivíduo B, não se apodera dela pela força, nem vice-versa, mas reconhecem-se mutuamente como proprietários, como pessoas cuja vontade impregna suas mercadorias. Em decorrência, aqui entre de imediato o momento jurídico da pessoa e da liberdade, na medida em que está contida na primeira. Nenhum deles se apodera da propriedade do outro pela força. Cada um a cede voluntariamente. Mas isso não é tudo: o indivíduo A serve à necessidade do indivíduo B por meio da mercadoria a somente na medida em que, e porque, o indivíduo B serve à necessidade do indivíduo A por meio da mercadoria b, e vice-versa. Cada um serve ao outro para servir a si mesmo; cada um serve reciprocamente do outro como seu meio. Ambos os aspectos estão agora presentes na consciência dos dois indivíduos: 1) que cada um só alcança seu objetivo à medida que serve como meio para outro; 2) que cada um só devém meio para outro (ser para outro) como fim em si mesmo (ser para si); 3) que a reciprocidade, segundo a qual cada um é ao mesmo tempo meio e fim, e de fato só alcança seu fim à medida em que devém meio, e só devém meio à medida que se põe como fim em si mesmo; que, portanto, cada um se põe como ser para outro à medida que é ser para si, e que o outro se põe como ser para ele quando é ser para si mesmo – que essa reciprocidade é um fato necessário, pressuposto como condição natural da troca, mas que é, enquanto tal, indiferente para cada um dos dois trocadores, e essa reciprocidade tem interesse para o indivíduo apenas na medida em que satisfaz seu interesse, como interesse que exclui o interesse do outro, sem ligação com ele. O que significa dizer que o interesse comum, que aparece como motivo do ato como um todo, é certamente reconhecido como fato por ambas as partes, mas não é motivo enquanto tal, ao contrário, atua, por assim dizer, por detrás dos interesses particulares refletidos em si mesmos, do interesse singular contraposto ao do outro. Sob esse último aspecto, o indivíduo pode ter no máximo a consciência reconfortante de que a satisfação de seu interesse singular contraditório é justamente a realização da contradição superada, do interesse social universal. Pelo próprio ato da troca, o indivíduo, cada um dos indivíduos, está refletido em si mesmo como sujeito exclusivo e dominante (determinante) do ato da troca. Com isso, portanto, está posta a completa liberdade do indivíduo: transação voluntária; nenhum violência de parte a parte; posição de si como meio, ou a serviço, unicamente como meio de se pôr como fim em si, como o dominante e o prevalecente; enfim, o interesse egoísta, que não realiza nenhum interesse superior; o outro também é reconhecido e conhecido como sujeito que realiza seu interesse egoísta exatamente da mesma maneira, de modo que ambos sabem que o interesse comum consiste precisamente na troca do interesse egoísta em sua bilateralidade, multilateralidade e autonomização. O interesse universal é justamente a universalidade dos interesses egoístas. Se, portanto, a forma econômica, a troca, põe a igualdade dos sujeitos em todos os sentidos, o conteúdo, a matéria, tanto individual como objetiva, que impele à troca, põe a liberdade. Igualdade e liberdade, por conseguinte, não apenas são respeitadas na troca baseada em valores de troca, mas a troca de valores de troca é a base produtiva, real, de toda igualdade e liberdade. Como ideias puras, são simples expressões idealizadas dessa base; quando desenvolvidas em relações jurídicas, políticas e sociais, são apenas essa base em outra potência. E isso também se verifica historicamente. A igualdade e a liberdade nessa extensão são exatamente o oposto da liberdade e igualdade antigas, que não têm justamente o valor de troca desenvolvido como fundamento, mas se extinguem em seu desenvolvimento. Elas pressupõem relações de produção que ainda não haviam se realizado no mundo antigo nem tampouco na Idade Média".

sexta-feira, 1 de março de 2013

"Um Senhor Piquenique", por Adoniran Barbosa

– Que horas são?

– Três de la matina. Eu vou dormir.


– Eu não vou. Já são três horas e o ônibus sai às cinco!


– Que ônibus?


– Não sabe? Eu conto pro senhor. Nóis vai fazê um piquenique na Praia Grande. O ônibus sai às cinco, nóis chega lá às sete e meia. Vai ser um senhor piquenique! Um sinhô piquenique!


– Nóis? Nóis quem?


– Gente da minha rua. Todos de lá. Quase tudo da mesma firma. Gente da Casa Pirani, da Companhia de Gás, ali no Gasômetro, da Maria Zélia, Matarazzo, da Arno. A gente mora quase todos na mesma rua. Quase todos. Pessoal da Caetano Pinto, Carneiro Leão, Visconde de Parnaíba e adjacência. Todos nóis! Quase uma família só, a bem dizer. Trabalhemos quase tudo na mesma firma, e moremos tudo perto um do outro.


– Mas como é que é o piquenique?


– O sinhô nunca foi num piquenique?


– Não.


– Qué i junto? Eu falo com o Dante e nóis arranja lugá pro sinhô no ônibus! O sinhô vai vê o que é o piquenique na Praia Grande, feito por nóis.


– Deve ser bom demais…


– Ô!!! O Dante, que é o mais velho da turma, é que organiza tudo. Primeiro, ele consurta quem qué i. Depois que tudo mundo aceita, ele vem e fala: o ônibus custa cento e quarenta conto. Aumentou. Mas tem uma coisa: o ônibus fica à nossa disposição o dia inteirinho, com chofer e tudo. O ônibus chega na praia, deixa nóis ali, encosta num canto longe da praia, e espera até a hora que a gente marquemos pra volta. No ano passado teve um. Foi ótis, doutor, ótis! Ninguém mais esquece aquele piquenique do ano passado, de tão ótis que foi!


– Vai muita gente?


– Hiii! Lotação compreta: trinta e seis sentado. Se a agência do ônibus deixava, ia mais uns vinte. Mas nós somos ordeiro, respeitemos tudo. Eu vou contar, só pro sinhô ter uma idéia. Quando é na véspa, cada um arruma as suas coisa, principalmente essas coisa pra comê, o sinhô sabe, não? Nesse altura, o Dante já recolheu o dinheiro de cada um. Uns cinco, déis conto por pessoa. Já pagou a agência, e já tá com o recibo. Hora marcada e tudo. Aí ele e a patroa (conhece dona Mafalda? Não? Magina!!!) começa a preparar as coisa. Ela faz uns vinte frango cheio, sendo que cada uma das mulher faz outras coisa. As moça se arruma, corta as unha dos dois pé, tem umas que compra maiô novo na loja, tem as outras que manda enrolá o cabelo, pra soltá de manhã, e é uma beleza! Nessa noite, tudo mundo pega o berço mais cedo, que é pra levantar disposto, porque o Dante é igigente e todo mundo respeita ele, porque ele num demite atraso e nem confusão. Ele avisa um por um: “Ângelo, o ônibus sai cinco hora. Quatro e meia no largo da Concórdia, tudo mundo. Avisa quem você encontrar!” Nessa noite, doutor, tou garantindo que ninguém drome dereito. O mar fica fazendo onda na cabeça da gente! E gente que ainda sonha fica sonhando com o céu azulzinho, a espuma branca batendo na areia, as onda que vai e que vem! É um sonho, doutor, um sonho! O sinhô já sonhô furta-cor? Contaram alguma vez da Disneylândia pro sinhô? É quase igual, eu nunca fui lá, mas é quase igual!


Partida


– Esse é o nosso ônibus! Vamo pegá o nosso lugar! Cada um com a sua sacola. Ninguém perturba! –esse é o Dante que fica de olho na gente. O Dante –sabe?– é gordo, corado, bonito, um pedaço de homem desse tamanho! Ele gosta de piquenique, doutor, nem queira saber!


– Aquiles, não sai de perto de nóis! Quando chega lá, fica tudo mundo junto! –É a dona Carmeluccia que tá falando. Coitada! Com as criança, a cesta, a sacola, pacote de sanduíche (para comer na viagem), ela entra no ônibus. E o resto vai subindo, pegando lugar, até um casal de namorado (o filho da dona Guiomar com a filha do seu Orlando) senta lá atrás, porque os dois não quer se misturar com a gente. Nóis também não se incomoda, porque o ano passado aconteceu igual com a Iolanda e o Amílcar e os dois casaram e nem vão amanhã, porque ela vai ter nenê por esses dias. Bem feito! Aí, o ônibus sai. As mãe manda as criança dá tchau pra gente que ficou no largo da Concórdia. Nem bem começa a viagem, o Gardelito (ele mora com a nona na Visconde de Parnaíba) começa a tocar violão. Doutor, ninguém quase fica queto. A gente canta pro motorista:


“Motorista meu amor! Motorista você é artista! Não corra tanto, por favor, queremos chegar vivo, sim senhor!”


–Pára na biquinha pra gente fazê xixi.


–Pára pra bebê água! Xixi é na moita!


–Qué sanduíche, filho?


–Não, mãe, espera mais pra adiante!


–Num afasta o banco que me espreme as perna!


- Coitado do Romano, não pôde vim!


–Por quê?


–Teve que drobá no serviço lá no Gasômetro.


Aí o Américo aponta pro lado e tudo mundo olha:


–Óia a Voquisvage! Aí que é a Voquisvage! São Bernardo do Campo!


–O ano que vem, eu acho que compro um Fusquete desses! Olha quantos que tem aí!


–Tudo zero quilómis!


Tem gente dormindo no ônibus. Menos as mocinha e o Dante (esse não dorme), olhando sempre pra tráis. E as mocinha canta:


“Eu te amo! Eu te amo!”


Vem a bronca do Riccieri:


–Mas até aqui? Já não chega o dia inteiro lá em casa?


Mas as moça dão o troco:


–Eh, tio, vê se num enche. Seu tempo já passô.


–Passô? Gardelito, dá o tom maior aí.


Gardelito dá um acorde, e nóis batuca nos braço da poltrona, e no pandeiro do Cláudio, só pra elas ver que nóis num passemos:


“É da banda da banda de lá! É da banda da banda de cá! Houve retreta domingo e a banda da banda de lá veio tocar na banda de cá. Durante a retreta com a banda da banda de lá e a banda da banda de cá, alguém desafinou: trocaram o dó pelo fá e todo mundo protestou! É da banda da banda de lá! É da banda da banda de cá!”


–Velho, hein? Todo mundo cantou com nóis. E  teu “ti amo”, alguém cantou?


–Pessoal, sigura que tá descendo a serra! Já tô meio surdo!


–Não é nada. É a impressão da altura da serra! Respira fundo que passa!


–Magina se o ônibus rodopeia daqui! Não sobra ninguém!


–Bidu! Olha o Cubatão! Lá tem oloduto!


–Que qui é oloduto, pai?


–Ólio encanado. Vai dereto pras bomba de gasolina de São Paulo.


–Tá chegando!


–O mar num é lá?


–Acho que é!


–Daí a pouco a gente tá chegando na Praia Grande.


Praia

O ônibus pára e o motorista avisa a gente:


–É aqui. Desce tudo mundo e as coisa pode ficá no carro que eu tomo conta. Eu vou encostá um pouco retirado, porque é proibido estacioná na praia, o sinhô sabe, não?


Aí os home desce. Fica só as mulher, que é pra poder trocar de roupa. O Dante leva a gente pra trocar de roupa numa casa que tá em construção. O Dante conversa com o home e a gente pode tomar banho e vestir o calção e, na volta, ele disse que pode tirá o sal. Tem chuveiro. A gente troquemos, dobremos nossas roupa e tudo mundo vai guardar suas coisa no ônibus.


–Não entra ainda! Tem moça se trocando! –é a dona Mênega que fala.


–Já dá pra tomar uma batida, não dá, seu Dante?


–Não! Eu truxe um garrafão. Fiz onti di noite, no capricho.


–Mas mesmo assim nóis vai –cochicha o Ernesto.


A mãe do Amílcar dá bronca:


–Olha, vocês viero aqui pra tomá banho de mar, e não pra enchê o caco. Cuidado, hein, bom?


Tá tudo pronto. As moça tudo de maiô, bem penteada, os home de calção e as mãe de maiô cumprido, se cobrindo com o penhoar.


–Meio-dia tudo mundo aqui! Não vão longe! Aqui embaixo dessas álvores.


–Perfeitamente, seu Dante! Fica sossegado!


O seu Dante ainda avisa:


–Não vão longe! Olha as criança, pelo amor de Deus!


O Romeu trouxe a bola pra uma pelada na praia. Ele é o Rivelino da turma. A gente formemos dois time: velho contra moço. As mocinha vão jogar peteca e as mulher vão arranjando lugar na areia, enquanto que as criança vão fazer castelinho de areia, mas alguns querem mesmo é pegar conchinha pra trazer de lembrança.


A essa altura, o Étore já está no bar, arrepiado com a primeira:


–Não sei como é que branco bebe isso!


O resto da turma vai deixando o futebol e vem encostá o imbigo no balcão.


–Eu quero uma com maracujá.


–Uma pura e um picolé de limão pra misturá.


–Pra mim faz uma caipirnha sem casca!


–Pra mim tamém!


–Pra mim tamém! Mas coadinha!


–Pra mim tamém! Com bastante gelo.


O Dante vem e bronqueia:


–E quem é que vai bebê aquela que eu truxe? Voceis não tem jeito mesmo. Parece que nunca viro cachaça!


E depois o Dante pede pro dono do bar:


–Duas dúzia de cerveja, e duas de guaraná pras criança. Eu pago o depósito do vasilhame. Tudo bem geladinho, hein!


–Tudos mundo tomá banho!


– Não vão longe, hein?


A espuma do mar vem vindo, vem vindo e chega na ponta do meu pé:


–Brrrrrrrrrrr!


–Tá fria, Rolando?


–Que fria nada, paulista. Entra duma vez que você perde o medo!

A gente olha e já vê tudo mundo brincando nas onda!

O filho da dona Guiomar e a filha do seu Orlando não se mistura com a gente. Tão suzinho lá adiante. Dois bobocas…


–Aquilo vai dá casamento!


–Deus queira!


Tudo mundo da turma tá alegre demais!


–Pula essa onda, manhê!


–Que lindo que é o mar! Dá vontade de comê!


–Olha o sol! Parece um remendo branco na calça azul do céu!


–Já perdi a fome. Queria bebê o mar inteiro!


–Que pena que daqui a pouco teremos que i simbora!


Um menino dá risada:


–Olha os gambito branco do Seu Adamo! Branco que nem leite!


Aí o Brancato fica beservando a moça:


–Bobona! Não quer mostrar as gâmbia! Bela porcaria.


O último que saiu do bar foi o Roberto!


–Já me esquiatei quatro bela caipirinha dupra e, agora, eu vou ver a cor d’água!


E lá vai ele cantando:


“Por que bebes tanto assim, rapaiz?”


O Ricieri dá uma baita bronca no garoto.


–Porco! Onde se viu fazê xixi no mar? Quem te ensinô a fazê isso daí? Alguma vez seu pai fez isso? E agora temo que nadá nisso aí? Porco!


Chega o Dante:


–Hi, quantas vez eu discarreguei no mar! Se fosse contá, dava pra enchê um balde!


A pelada está no fim. Os velho ganharam, como sempre.


É aí que a dona Olívia não aguenta mais:


–Pessoar! Vamo comê! Chega de água do mar!


Então todo mundo vai saindo d’água, vai rindo, tomando o caminho do ônibus, pra ir pegar comida e arranjar lugar embaixo das álvores. Cada um vai arrumando a toalha no chão, as mulher vão abrindo os pacote, as sacola e vão pondo tudo na toalha e já tem gente mastigando em falso, com água na boca!


O almoço


O almoço é uma festa. Cada família fez uma coisa. É só olhar e ver tudo em cima das toalhas estendidas na grama: frango cheio, pimentão cheio, brajolinha, abobrinha cheia, torta de frango, cuscuz, bife à milanesa, coxinha, mortadela, presunto, salaminho, pão de peito da Rua Glicério, vinho da cantina do irmão do Dante (vinho bom), garrafão de pinga com limão, que o Étore preparou, cheiro de frango, cheiro de pastéis (foi a nona do Gardelito quem fez), a risada do Roberto e os palpites do Guido:


–Fui até naquela onda lá!


O Dante previne a gente:


–Dispois de comé, ninguém vai nadá na água, porque dá digestão!


Tudo mundo divagarzinho vai ficando quieto. O sono tá batendo na gente e a persiana do zolhos querendo fechar. Os moço não dorme. O Gardelito pega o violão e começa a cantar tango:


“Estoy me poniendo viejo de tras de la alma se va la vida. Hoy me miré al espejo e senti mi alma que está moriendo cuando mi amor me acariciava…”


Música vai, música vem e está na hora do último banho:


–Vamo entrar mais um poco n’água?


Tudo mundo volta pra água. E começa de novo as risadas, o jogo de bola, gente furando onda, batendo peteca, as criança na areia, o namorado desenhando com o dedão do pé um coração com flecha na areia molhada, as mulher conversando, e começa o cansaço até que o Dante dá a orde:


–Vamo se arrumá, que às quatro o ônibus sai. São três e meia. Acho que já chega.


O pessoal vai saindo, as mulher vão tirá o sal no chuveiro da casa em construção, que o Dante pediu emprestado. E, depois do banho, a gente já tá meio triste, cansado, tudo mundo se arrumou e vão subindo no ônibus. E, quando tá tudo pronto, o motorista avisa que vai embora e o Dante examina, vê se não falta ninguém e manda tocar. E a gente nas janelinha vai olhando a praia que fica dizendo que é uma pena!


–Ainda é cedo! Fica mais um pouco, pessoar!


Mas a gente diz que não pode, porque a estrada tá muito cheia, tem muito carro e a gente precisamos chegar cedo, pra trabalhar amanhã no nosso serviço, porque temos os nosso compromissos.


Volta


O ônibus sai depressa e levanta as folha de jornal e de papel que deixemos na praia e esses papel voando lá atrais parece que tão dizendo adeus e querendo que a gente fique mais um pouco!


A tarde vai morrendo e nóis na estrada, ouvindo só o ronco do motor, mas tem alguém que ainda canta:


“Motorista, motorista, por favor. Não corras tanto! Devagar é pressa! É pressa, sim senhor. Do jeito que saímos nós queremos chegar…”


Já é quase noite. O ônibus já está no Brás. Pára no Largo da Concórdia, justo onde o Dante combinou a chegada. A porta abre e a gente vai descendo e ninguém diz até logo e nem nada. Nós moremos perto, quase tudo uma família só. E nessa noite tem alguém que sonha com a espuma branca do mar, a onda braba que vinha, o sol tostando o corpo, e a areia queimando o pé da gente, e nós ouvindo o ronco do mar, a voz do Gardelito, o samba no ônibus, o iê-iê das meninas, tudo que a gente viu e ouviu. E a gente fica triste, quando escuta dona Edna dizendo que não pôde aproveitar:


–Justo hoje! Porca pipa! Não faz mal, as minhas menina se divertiro bastante! Graças a Deus!


E quando tudo mundo já entraram cada um em suas casa, nóis entremo no bar, pedimos a penúltima, olhamos pra tudo mundo, até gente que nós não conhece, enchemos o peito, depois de um gole, e suspiramos fundo, mas cheio de orgulho:


–Grande! Como é grande um piquenique na Praia Grande!…

Créditos: blog Socialista Morena

Estou lendo "Grundrisse", de Karl Marx


“A mania por prazer em sua forma universal e a avareza são as duas formas particulares da avidez por dinheiro. A mania abstrata por prazer pressupõe um objeto que contenha a possibilidade de todos os prazeres. A mania abstrata por prazer efetiva o dinheiro na determinação em que ele é o representante material da riqueza; e efetiva a avareza, na medida em que o dinheiro é somente a forma universal da riqueza diante das mercadorias como suas substâncias particulares. (...) A avidez por dinheiro e a mania de enriquecimento são necessariamente o ocaso das antigas comunidades. Daí a oposição ao dinheiro. O próprio dinheiro é a comunidade e não pode tolerar nenhuma outra superior a ele. Mas isso pressupõe o pleno desenvolvimento dos valores de troca e, por conseguinte, uma organização da sociedade [correspondente] a tal desenvolvimento. Entre os antigos, o valor de troca não era o nexus rerum [nexo das coisas]; só se manifesta assim entre os povos comerciantes, que, no entanto, tinham apenas comércio itinerante e não produziam para si mesmos. Ao menos era coisa secundária entre os fenícios, cartagineses etc. Eles podiam viver tão bem nos interstícios do mundo antigo quanto os judeus na Polônia ou na Idade Média. Mais precisamente, esse mesmo mundo era o pressuposto de tais povos comerciantes. Entre os romanos, gregos etc., o dinheiro se manifesta, de início, de modo ingênuo em suas duas primeiras determinações, medida e meio de circulação, mas pouco desenvolvido em ambas. Entretanto, tão logo se desenvolve seu comércio etc., ou, como entre os romanos, tão logo a conquista lhe traz dinheiro em grande quantidade – em síntese, de maneira repentina, em uma certa etapa do desenvolvimento econômico o dinheiro manifesta-se necessariamente em sua terceira determinação, e quanto mais se desenvolve naquela determinação, maior o declínio da comunidade. (...) É intrínseco à determinação simples do próprio dinheiro que ele só pode existir como momento desenvolvido da produção ali onde existe o trabalho assalariado; que, ali, igualmente, longe de dissolver a forma de sociedade, o dinheiro é muito mais uma condição de seu desenvolvimento e um motor do desenvolvimento de todas as forças produtivas, materiais e espirituais. Mesmo hoje em dia, um indivíduo singular pode ganhar dinheiro por acaso e, assim, sua posse pode ter sobre ele um efeito igualmente dissolvente, tal como teve sobre a antiga comunidade. Mas a própria dissolução desse indivíduo na sociedade moderna é apenas o enriquecimento da parte produtiva da própria sociedade. O possuidor do dinheiro, no sentido antigo, é dissolvido pelo processo industrial ao qual serve a despeito de seu saber e querer. A dissolução afeta apenas sua pessoa. Como representante material da riqueza universal, como o valor de troca individualizado, o dinheiro deve ser imediatamente objeto, fim e produto do trabalho universal, do trabalho de todos os singulares. O trabalho tem de produzir imediatamente o valor de troca, i. e., dinheiro. Por essa razão, tem de ser trabalho assalariado. A mania de enriquecimento, como pulsão de todos, porquanto cada um quer produzir dinheiro, cria a riqueza universal. Só desse modo a mania de enriquecimento universal pode devir a fonte da riqueza universal que se reproduz de maneira contínua. Quando o trabalho é trabalho assalariado, e sua finalidade é imediatamente dinheiro, a riqueza universal é posta como sua finalidade e seu objeto. (A esse respeito, comentar sobre o contexto do sistema militar antigo, tão logo se converteu em sistema mercenário). O dinheiro como finalidade devém aqui meio da laboriosidade universal. A riqueza universal é produzida para se apoderar de seu representante. Assim são abertas as fontes efetivas da riqueza. Como a finalidade do trabalho não é nenhum produto particular que está em uma relação particular com as necessidades particulares do indivíduo, mas dinheiro, a riqueza em sua forma universal, então, em primeiro lugar, a laboriosidade do indivíduo não tem nenhum limite – é indiferente em relação à sua particularidade e assume qualquer forma que serve à finalidade; é engenhosa em criar novos objetos para a necessidade social etc. É claro, portanto, que, sobre a base do trabalho assalariado, o dinheiro não tem efeito dissolvente, mas produtivo; enquanto a comunidade antiga já e si mesma está em contradição com o trabalho assalariado como fundamento universal”.