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segunda-feira, 1 de abril de 2013

"O Cão Sem Plumas", de João Cabral de Melo Neto



I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.


O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.


Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.


Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.


Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.


Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.


Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.


E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.


Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.


Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.


Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.


Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.


(É nelas,
mas de costas para o rio,
que “as grandes famílias espirituais” da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).


Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?


Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?


II. Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.


Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.


Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.


Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).


O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.


Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.


E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.


Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.


Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).


Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.


Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.


Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.


Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).


III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.


No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.


(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.


Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.


Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.


O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado


à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).


O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.


Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.


Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.


Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.


Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.


(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;


a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.


Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).


IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.


Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.


O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.


Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.


Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.


Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.


E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.


Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.


Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).



sábado, 30 de março de 2013

"como um coto", de Paulo Leminski



como um coto caro ao roto
incrédulo tiago
toco as chagas
que me chegam
do passado
mutilado

toco o nada
aquele nada que não para
aquele agora nada
que tinha
a minha cara

nada não
que nada nenhum
declara tamanha danação

terça-feira, 19 de março de 2013

"Os Comunistas", de Pablo Neruda

O tempo tempera as reflexões e os sentidos. Salpica de arrebatamentos a calma mais controlada e tranquiliza os arroubos mais inseguros. Vemos o passado com os olhos de quem reconhece sua  gênese ou de quem de soslaio meio envergonhado diz "this is the end... my only friend, the end" e fecha, assim, o futuro?

Sem apoteose, recolho o Neruda com o carinho e a sensação pesada de quem encontra a foto do velho avô. Saudades de um tempo que nunca vivi. 

Às vezes, entendo porque o romantismo é tão sedutor.


OS COMUNISTAS

Passaram-se alguns anos desde que ingressei no partido...
Estou contente...
Os comunistas formam uma boa família...
Têm a pele curtida e o coração moderado...
Por toda parte recebem golpes...
Golpes exclusivos para eles...
Vivam os espíritas, os monarquistas, os anormais, os criminosos de todas as espécies...
Viva a filosofia com muita fumaça e pouco fogo... Viva o cão que ladra e que morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarão, viva todo o mundo, menos os comunistas...
Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que não lavam os pés ideológicos há quinhentos anos...
Vivam os piolhos das populações miseráveis, viva a fossa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva André Gide com seu coridonzinho, viva qualquer misticismo...
Está tudo bem...
Todos são heróicos...
Todos os jornais devem sair...
Todos podem ser publicados, menos os comunistas...
Todos os políticos devem entrar em São Domingos sem algemas...
Todos devem celebrar a morte do sanguinário, de Trujillo, menos os que mais duramente o combateram...
Viva o carnaval, os últimos dias de carnaval...
Há disfarces para todos...
Disfarces de idealista cristão, disfarces de extrema esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas...
Mas cuidado: não deixem entrar os comunistas... Fechem bem a porta...
Não se enganem...
Eles não têm direito a nada...
Preocupemo-nos com o subjetivo, com a essência do homem, com a essência da essência...
Assim estaremos todos contentes...
Temos liberdade...
Que grande coisa é a liberdade!...
Eles não a respeitam, não a conhecem...
A liberdade para se preocupar com a essência... Com o essencial da essência...
Assim têm passado os últimos anos...
Passou o jazz, chegou o soul, naufragamos nos postulados da pintura abstrata, a guerra nos abalou e nos matou...
Tudo permanecia o mesmo...
Ou não permanecia?...
Depois de tantos discursos sobre o espírito e de tantas pauladas na cabeça, alguma coisa ia mal... Muito mal...
Os cálculos tinham falhado...
Os povos se organizavam...
Continuavam as guerrilhas e as greves...
Cuba e o Chile se tornavam independentes...
Muitos homens e mulheres cantavam a Internacional...
Que estranho...
Que desanimador...
Agora cantam-na em chinês, em búlgaro, em espanhol da América...
É preciso tomar medidas urgentes...
É preciso bani-lo...
É preciso falar mais do espírito...
Exaltar mais o mundo livre...
É preciso dar mais pauladas...
É preciso dar mais dólares...
Isto não pode continuar...
Entre a liberdade das pauladas e o medo de Germán Arciniegas...
E agora Cuba... Em nosso próprio hemisfério, na metade de nossa maçã, estes barbudos com a mesma canção...
E para que nos serve Cristo?...
Para que servem os padres?...
Já não se pode confiar em ninguém...
Nem mesmo nos padres. Não vêem nossos pontos de vista...
Não vêem como baixam nossas ações na Bolsa... Enquanto isso sobem os homens pelo sistema solar...
Deixam pegadas de sapatos na Lua...
Tudo luta por mudanças, menos os velhos sistemas...
A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais...
Teias de aranha mais duras do que os ferros das máquinas...
No entanto, há gente que acredita numa mudança, que tem posto em prática a mudança, que tem feito triunfar a mudança, que tem feito florescer a mudança...
Caramba!...
A primavera é inexorável!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Nosso Tempo", de Carlos Drummond de Andrade

  1. I

    Esse é tempo de partido,
    tempo de homens partidos.

    Em vão percorremos volumes,
    viajamos e nos colorimos.
    A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
    Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
    As leis não bastam. Os lírios não nascem
    da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
    na pedra.

    Visito os fatos, não te encontro.
    Onde te ocultas, precária síntese,
    penhor de meu sono, luz
    dormindo acesa na varanda?
    Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
    sobe ao ombro para contar-me
    a cidade dos homens completos.

    Calo-me, espero, decifro.
    As coisas talvez melhorem.
    São tão fortes as coisas!
    Mas eu não sou as coisas e me revolto.
    Tenho palavras em mim buscando canal,
    são roucas e duras,
    irritadas, enérgicas,
    comprimidas há tanto tempo,
    perderam o sentido, apenas querem explodir.

    II

    Esse é tempo de divisas,
    tempo de gente cortada.
    De mãos viajando sem braços,
    obscenos gestos avulsos.

    Mudou-se a rua da infância.
    E o vestido vermelho
    vermelho
    cobre a nudez do amor,
    ao relento, no vale.

    Símbolos obscuros se multiplicam.
    Guerra, verdade, flores?
    Dos laboratórios platônicos mobilizados
    vem um sopro que cresta as faces
    e dissipa, na praia, as palavras.

    A escuridão estende-se mas não elimina
    o sucedâneo da estrela nas mãos.
    Certas partes de nós como brilham! São unhas,
    anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
    são partes mais íntimas,
    e pulsação, o ofego,
    e o ar da noite é o estritamente necessário
    para continuar, e continuamos.

    III

    E continuamos. É tempo de muletas.
    Tempo de mortos faladores
    e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
    mas ainda é tempo de viver e contar.
    Certas histórias não se perderam.
    Conheço bem esta casa,
    pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
    a sala grande conduz a quartos terríveis,
    como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
    conduz à copa de frutas ácidas,
    ao claro jardim central, à água
    que goteja e segreda
    o incesto, a bênção, a partida,
    conduz às celas fechadas, que contêm:
    papéis?
    crimes?
    moedas?

    Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
    ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
    moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
    pessoas e coisas enigmáticas, contai;
    capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
    velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
    ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
    costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
    Tudo tão difícil depois que vos calastes...
    E muitos de vós nunca se abriram.

    IV

    É tempo de meio silêncio,
    de boca gelada e murmúrio,
    palavra indireta, aviso
    na esquina. Tempo de cinco sentidos
    num só. O espião janta conosco.

    É tempo de cortinas pardas,
    de céu neutro, política
    na maçã, no santo, no gozo,
    amor e desamor, cólera
    branda, gim com água tônica,
    olhos pintados,
    dentes de vidro,
    grotesca língua torcida.
    A isso chamamos: balanço.

    No beco,
    apenas um muro,
    sobre ele a polícia.
    No céu da propaganda
    aves anunciam
    a glória.
    No quarto,
    irrisão e três colarinhos sujos.

    V

    Escuta a hora formidável do almoço
    na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
    As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
    Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
    Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
    olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
    Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
    mais tarde será o de amor.

    Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
    O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
    Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
    Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
    vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
    toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

    Escuta a hora espandongada da volta.
    Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
    roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
    homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
    imaginam esperar qualquer coisa,
    e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
    últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
    já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
    Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
    o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
    com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
    escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
    errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
    confiar-se ao que bem me importa
    do sono.

    Escuta o horrível emprego do dia
    em todos os países de fala humana,
    a falsificação das palavras pingando nos jornais,
    o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
    os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
    a constelação das formigas e usurários,
    a má poesia, o mau romance,
    os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
    o homem feio, de mortal feiúra,
    passeando de bote
    num sinistro crepúsculo de sábado.

    VI

    Nos porões da família
    orquídeas e opções
    de compra e desquite.
    A gravidez elétrica
    já não traz delíquios.
    Crianças alérgicas
    trocam-se; reformam-se.
    Há uma implacável
    guerra às baratas.
    Contam-se histórias
    por correspondência.
    A mesa reúne
    um copo, uma faca,
    e a cama devora
    tua solidão.
    Salva-se a honra
    e a herança do gado.

    VII

    Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
    para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
    dores de classe, de sangrenta fúria
    e plácido rosto. E há mínimos
    bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
    lesões que nenhum governo autoriza,
    não obstante doem,
    melancolias insubornáveis,
    ira, reprovação, desgosto
    desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
    Há o pranto no teatro,
    no palco ? no público ? nas poltronas ?
    há sobretudo o pranto no teatro,
    já tarde, já confuso,
    ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
    vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
    vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
    e secar ao sol, em poça amarga.
    E dentro do pranto minha face trocista,
    meu olho que ri e despreza,
    minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
    que polui a essência mesma dos diamantes.

    VIII

    O poeta
    declina de toda responsabilidade
    na marcha do mundo capitalista
    e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
    prometa ajudar
    a destruí-lo
    como uma pedreira, uma floresta
    um verme.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

"Estátuas", de Humberto Bodra


Abaixo o mastodonte de granito!
Força, todos juntos,
que as cordas já uivam
asfixiando como um urso
o pedestal.
Pronto! O homem de pedra
estrondeia e se estatela
no meio da praça.
Empunhemos as marretas e os
martelos!
(Foices não! Ainda uma vez não:
enfeites e armadilhas.)
Vamos, espatifem o seu olhar sereno
espicacem o seu vulto solene
sua testa larga, suas orelhas.
Desmoronem e esfrangalhem todos os
dinossauros
e suas cabeças de esclerose.
Dilacerem todas as múmias
e seus catecismos simplórios.
Profanem os altares do socialismo
científico
e todos seus lugares sagrados
pois é a hora dos iconoclastas
e o crepúsculo dos deuses.
Nos pedestais vazios
se quiserem
soergam a altiva Liberdade
com seu facho novaiorquino
e seus raios democráticos.
Sim. Façam tudo isso
mas, ao final, sepultadas as
caricaturas
ao menos por curiosidade,
abram seus livros.
Desvencilhados de monumentos
e fetiches
desacorrentem seu pensamento crítico
derrubem também as comportas
com que cercam em pântano
o fluir de sua dialética,
e a louca paixão pela humanidade.
Então outra vez
companheiro Carlos e Frederico
companheira Rosa e companheiro
Ilitch
serão vocês
perigosos
outra vez.

Humberto Bodra (17/08/91)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

"A Infanticida Marie Farrar", de Bertolt Brecht

1
Marie Farrar, nascida em Abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

2
Ela porém, diz, não deixou de pagar
O combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

3
Mas as rezas foram de pouca ajuda, ao que parece.
Havia pedido muito. Com o corpo já maior
Desmaiava na Missa. Várias vezes suou
Suor frio, ajoelhada diante do altar.
Mas manteve seu estado em segredo
Até a hora do nascimento.
Havia dado certo, pois ninguém acreditava
Que ela, tão pouco atraente, caísse em tentação.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

4
Nesse dia, diz ela, de manhã cedo
Ao lavar a escada, sentiu como se
Lhe arranhassem as entranhas. Estremeceu.
Conseguiu no entanto esconder a dor.
Durante o dia, pendurando a roupa lavada
Quebrou a cabeça pensando: percebeu angustiada
Que iria dar à luz, sentindo então
O coração pesado. Era tarde quando se retirou.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

5
Mas foi chamada ainda uma vez, após se deitar:
Havia caído mais neve, ela teve que limpar.
Isso até a meia-noite. Foi um dia longo.
Somente de madrugada ela foi parir em paz.
E teve, como dia, um filho homem.
Um filho como tantos outros filhos.
Uma mãe como as outras ela não era, porém.
E não podemos desprezá-la por isso.
      Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

6
Vamos deixá-la então acabar
De contar o que aconteceu ao filho
(Diz que nada deseja esconder)
Para que se veja como sou eu, como é você.
Havia acabado de se deitar, diz, quando
Sentiu náuseas. Sozinha
Sem saber o que viria
Com esforço calou seus gritos.
      E os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos precisamos de ajuda, coitados.

7
Com as últimas forças, diz ela
Pois seu quarto estava muito frio
Arrastou-se até o sanitário, e lá (já não
sabe quando) deu à luz sem cerimônia
Lá pelo nascer do sol. Agora, diz ela
Estava inteiramente perturbada, e já com o corpo
Meio enrijecido, mal podia segurar a criança
Porque caía neve naquele sanitário dos serventes.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

8
Então, entre o quarto e o sanitário - diz que
Até então não havia acontecido - a criança começou
A chorar, o que a irritou tanto, diz, que
Com ambos os punhos, cegamente, sem parar
Bateu nela até que se calasse, diz ela.
Levou em seguida o corpo da criança
Para sua cama, pelo resto da noite
E de manhã escondeu-o na lavanderia.
      Os senhores, por favor, não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

9
Marie Farrar, nascida em abril
Falecida na prisão de Meissen
Mãe solteira, condenada, pode lhes mostrar
A fragilidade de toda criatura. Vocês
Que dão à luz entre lençóis limpos
E chamam de "abençoada" sua gravidez
Não amaldiçoem os fracos e rejeitados, pois
Se o seu pecado foi grave, o sofrimento é grande.
      Por isso lhes peço que não fiquem indignados
      Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

BRECHT, B. Poemas: 1913-1956. São Paulo: editora 34, 2000, pp. 40-43.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Tempo do Uso e o Uso do Tempo

Da indolência da matéria única que havia
A explosão foi capaz de tirar
O tempo lento da formação
Do que há e houve.
Explodiu e inaugurou o que hoje há.
Há, mas não mais como havia.

Passou o tempo e o tempo passa.
Passou lento, passa depressa.
Antes, era pelo dia, pela noite, pelas estações.
A atividade humana criou o que existe
No tempo da natureza.
Usou seu tempo, criando usos seus.
Valorizado era seu uso.
Valores de uso.
Transformar para viver
Carências em necessidades.
A satisfação vinha com o tempo
E seu uso.
Valores de uso.

Agora, não mais.
Depressa passa o tempo.
Rápido ele passa
Mas para quem?
Uso do tempo acelerado
Ou acelerado uso do tempo?
Uso?
Mas para quem?
Para o uso?
Não mais.
Mas para "si" mesmo.
“Si”, quem? – pergunta o outro.
Para o outro? Não mais.
O uso é puro substrato, carcaça.
Concreto portador da abstração.
Coisa morta para o “Si” que se basta.

Foi uso.
Não mais.
Antes, usado.
Agora, usa.
E reduz.
Valor de uso.
Valor.
Valor de us.
Valor.
Valor de u.
Valor.
Valor de.
Valor.
Valor d.
Valor.
Valor.
Valor.

Foi uso. Não mais.
Antes, usado. Agora, usa.
Usa quem? – pergunta o outro.
E reduz.

28/02/2012.