sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Entrevista de José Paulo Netto à revista Caros Amigos

Entrevista: José Paulo Netto

"Impera na esquerda ‘reciclada’ um cinismo assombroso"

O professor de serviço social e pensador marxista explica a história da esquerda no Brasil e seus desdobramentos no momento atual em entrevista especial para o site da Caros Amigos, em razão do lançamento da edição especial "Dilemas e Desafios da Esquerda Brasileira". Confira.

Por Tatiana Merlino

Caros Amigos - Quando se poderia afirmar que surgiu uma esquerda no Brasil?

Sem pretender rigor cronológico, diria que se pode falar em uma proto-história da esquerda brasileira a partir da última década do século 19 e nos primeiros anos do século 20. Pense-se, para ficarmos em exemplos conhecidos, nos nomes de Silvério Fontes, em parte da atividade de Euclides da Cunha e mesmo nas posições de Lima Barreto. Mas, com rigor, penso que a história da nossa esquerda tem mesmo o seu momento fundacional com a atividade dos grupos anarquistas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, no período imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial. Julgo correta a afirmação de que os anarquistas inauguraram a história da esquerda no Brasil.

Caros Amigos - Qual foi a influência da imigração europeia na consolidação de uma ideologia de esquerda no Brasil?

Esta influência foi absolutamente fundamental – não por acaso, mencionei, acima, que os anarquistas inauguraram a história da esquerda em nosso país. E sabemos do papel dos imigrantes neste processo (aliás, a oligarquia percebeu-o claramente: recorde-se a “lei celerada”, de 1907). Mas é necessário enfatizar que não se tratou de nenhuma transplantação artificial: a incipiente industrialização criava as condições para que as ideias difundidas pelas lideranças anarquistas penetrassem com força no nascente movimento operário. A greve de 1917, em São Paulo, mostra-o suficientemente.

Caros Amigos - Que ideias os imigrantes trouxeram?

Não cabe aqui, suponho, sumariar o ideário anarquista (que, diga-se de passagem, chega-nos como um caldo de cultura bastante heterogêneo). A mim, parece-me que o mais significativo pode ser resumido em dois pontos elementares: a defesa da dignidade do trabalho e do trabalhador e a definição claríssima das linhas básicas do antagonismo entre os interesses dos trabalhadores e os da oligarquia. Num país onde a herança do escravismo, ademais de pesadíssima, estava muito viva, a simples afirmação dos direitos civis e políticos do trabalhador “livre” já era, em si, revolucionária. Quanto à determinação das lutas de classes, o princípio da autonomia política dos trabalhadores (mesmo que, para os anarquistas, isto significasse uma recusa da intervenção política institucional, o que se demonstrou insustentável), no Brasil nós o devemos aos anarquistas.

Caros Amigos - Quais eram as correntes que atuaram no país no começo do século 20? Como era tal atuação?

À mobilização anarquista, a oligarquia respondeu imediatamente (para além da repressão) com o estímulo ao sindicalismo “amarelo”, explicitamente bancado pelo governo federal (pense-se, por exemplo, no esforço de Mário Hermes da Fonseca, filho do Presidente da República, para a criação do “peleguismo” no IV Congresso Operário, realizado no Rio de Janeiro). No período que sucede imediatamente à Primeira Guerra Mundial, o movimento operário tem a sua dinâmica fundada no confronto entre estas duas tendências. E suas formas de intervenção eram, é óbvio, inteiramente diversas: os anarquistas jogavam forte na criação de condições ideológicas constitutivas da consciência classista (sua ênfase na educação e na imprensa independente são seus traços característicos) e apostavam na ação direta; os “amarelos” incorporavam a ideologia da colaboração de classes e se subordinavam às diretrizes legal-institucionais da oligarquia.

Caros Amigos - Como foi o processo que resultou na criação do PCB? Quais foram as forças que o formaram?

Se não estou em erro, diria que o PCB (fundado em março de 1922) resulta da confluência de dois vetores: o exaurimento do poder de atração do anarquismo entre os trabalhadores e o impacto da Revolução de Outubro. A greve de 1917, que pôs a correr, em São Paulo, as autoridades e deixou a capital nas mãos dos trabalhadores – ponto mais alto da intervenção anarquista em nosso país –, também deixou a nu a incapacidade do anarquismo para tratar a questão do poder. O impacto da Revolução Russa conferiu grande prestígio (o que, aliás, foi um fenômeno mundial) ao comunismo, num primeiro momento inclusive entre os anarquistas. Evidentemente, não se esgotam nestes dois vetores as bases para o surgimento do PCB – para compreendê-lo, é necessário observar as mudanças societais que estavam em curso, mesmo larvares, no país, que alteravam claramente a estrutura de classes e as práticas políticas (pense-se, aqui, no que o “tenentismo” sinalizava) e atingiam inclusive as expressões estéticas (não é casual, ainda que expressando posições de classe muito diversas, que o PCB seja coetâneo ao Modernismo). Importa observar que o surgimento do Partido Comunista no Brasil, à diferença do ocorrido em muitos outros países, inclusive da América Latina, não se beneficiou da existência do que podemos designar como “cultura socialista”: aqui, o peso do anarquismo na fundação do PCB (lembre-se que o nome mais conhecido dentre os fundadores era o de Astrogildo Pereira, que provinha do anarquismo) foi hipertrofiado precisamente pela ausência de qualquer outro componente significativo de esquerda – não é por acaso que, no PCB, manifestam-se precocemente divergências de monta (por exemplo, já em 1927-1928).

Caros Amigos - Como se desenvolveu a esquerda durante o Estado Novo, o que ela enfrentou, como atuou?

O Estado Novo se ergue após uma séria derrota da principal força de esquerda operante no país a partir do segundo terço da década de 1930 – refiro-me ao PCB que, após a ilegalização da Aliança Nacional Libertadora (que, de fato, era uma frente que incluía outras forças além do PCB), lidera a tentativa de tomada do poder em novembro de 1935. Durante os anos de 1938 a 1943, período em que o Estado Novo se manteve em face de uma oposição imobilizada pela repressão (mas não só), a intervenção da esquerda foi praticamente nula. O próprio PCB (que, à época, assistiu ao surgimento de outras frações comunistas, como, por exemplo, aquela animada por Hermínio Sacchetta) praticamente desaparece como organização entre os finais dos anos 1930 e a realização da célebre “Conferência da Mantiqueira” (1943). É somente a partir de 1943 – e não se subestime nisto a viragem que ocorre no decurso da guerra, especialmente após a vitória soviética em Stalingrado – que se pode falar de uma retomada da intervenção da esquerda, inclusive com o surgimento de uma esquerda não-marxista.

Caros Amigos - E durante o intervalo democrático entre 45 e 64?

Penso que devemos ter alguma cautela ao mencionar o período 1945-1964 como um “intervalo democrático” – não nos esqueçamos que o Governo Dutra foi emblemático da Guerra Fria que nascia com o seu zoológico anticomunismo: foi, dos governos “constitucionais”, um dos mais, senão o mais, antidemocrático que tivemos. A repressão que então se abateu sobre o movimento operário-sindical responde, em grande medida, pela interrupção do crescimento da esquerda, visível em 1945-1946. Mas esta repressão não impediu a intervenção significativa da esquerda, seja no próprio período Dutra (evoque-se o papel do Partido Comunista na luta rural de Porecatu, no Paraná), seja na abertura dos anos 1950, em especial no movimento operário-sindical, quando os comunistas estabelecem, de fato, uma aliança com setores do Partido Trabalhista Brasileiro (o PTB de Vargas).

A meu juízo, é na segunda metade da década de 1950 – mais precisamente, após o suicídio de Vargas e a intentona golpista de 1955 – que podemos registrar um efetivo crescimento da esquerda no país. No período posterior a 1955, são constituintes deste crescimento dois fenômenos: a crise e a recuperação do PCB e o surgimento de forças de esquerda independentemente da influência do PCB. Conhece-se a crise do PCB na imediata sequência do XX Congresso do PCUS (fevereiro de 1956): a chamada “denúncia do culto à personalidade” de Stalin leva o PCB, desde 1945 fortemente stalinizado, a uma crise que põe o partido no fundo do poço. Somente em 1958, mediante uma “nova política” (cuja formulação inicial está na discutida “Declaração de Março”), o partido dos comunistas ganha um novo fôlego, que lhe permitirá ser uma referência nos anos seguintes (apesar da fratura que sobrevém em 1962 e que dá origem ao PC do B).

Mas é também no fim dos anos 1950 que surgem núcleos de esquerda, marxistas e revolucionários, que não carregam a hipoteca do stalinismo que marcara o PCB. Este movimento, que se tornará inteiramente visível na entrada dos anos 1960 e que enriquece a esquerda, não expressa tão somente a dinâmica da sociedade brasileira, mas também sinaliza giros ocorrentes em outras experiências políticas (ademais da Revolução Chinesa, incide aqui, poderosamente, o influxo das lutas de libertação nacional em todo o à época denominado Terceiro Mundo e, particularmente nos anos seguintes, da Revolução Cubana). Creio que é preciso estudar com mais cuidado estes anos férteis para a esquerda brasileira, quando o PCB perde o monopólio do marxismo entre nós – e o marxismo se espraia para muito além das fronteiras do PCB.

A transição dos anos 1950 aos 1960 é de crescimento (inclusive orgânico-partidário) da esquerda brasileira – e isto vale, a meu juízo, tanto para o PCB como as outras frações emergentes fora do circuito da tradição marxista. Penso na constituição de setores socialistas em partidos inteiramente alheios a esta tradição (basicamente no PTB) e no aparecimento de segmentos socialistas laicos vinculados a diferentes igrejas, embora com visibilidade maior para os de extração católica (em função, inclusive, do ponderável redirecionamento da Igreja a partir do papado de João XXIII). É mais ou menos claro que este crescimento da esquerda (e, em todas estas respostas, estou designando por “esquerda” um leque muito amplo e heterogêneo de forças, cujo denominador comum me parece ser o antiimperialismo e a crítica à ordem burguesa numa perspectiva voltada para o futuro, excluindo-se, pois, o anticapitalismo romântico próprio da direita restauradora) expressou, naqueles anos, um efetivo processo de democratização da sociedade brasileira – processo ele mesmo relacionado às mudanças estruturais em curso (consolidação da industrialização substitutiva de importações, urbanização etc.).

Caros Amigos - O que representou o golpe de 64 para a esquerda no Brasil?

Entendo o golpe do 1º de abril conforme a brilhante caracterização de Florestan Fernandes: foi parte de um processo mundial de contra-revolução preventiva. Representou, para as massas trabalhadoras brasileiras, a liquidação de um processo de democratização que certamente conduziria a profundas modificações econômico-sociais, capazes de desobstruir a via para o rompimento da nossa heteronomia econômica. Para a esquerda, foi uma derrota de enormes implicações.

Também entendo que a esquerda laborou em equívocos e cometeu erros que facilitaram o golpe e a instauração da ditadura. Mas, ao contrário de muitos analistas, não debito a derrota de abril aos equívocos e erros da esquerda: o golpe, parte da mencionada contra-revolução preventiva, deve ser explicado pela natureza da dominação de classe exercida no Brasil pela burguesia. Naquele momento, incapaz de ser classe dirigente, ela escolheu, conscientemente, enquanto classe, ser classe dominante – e armou um esquema de alianças, nacionais e internacionais, que lhe possibilitou, durante quase 20 anos, instaurar o que o mesmo Florestan designou como autocracia burguesa.

Caros Amigos - Como avalia as diversas organizações que surgiram no pós-golpe? Por que foram tantas, por que eram tantas correntes? Porque não conseguiram se unir?

A unidade entre as forças reacionárias e/ou conservadoras nunca constituiu um problema de vulto na história política do século 20 – e se compreende a razão: seus interesses econômicos têm fundamentos comuns e estão enraizados no presente. No quadro da esquerda, a unidade é sempre problemática, porque os enlaces se dão mais na prospecção do futuro do que na defesa de interesses materiais imediatos; é problemática, mas possível, como resultado de longos processos de debates, do conhecimento da experiência histórica, de combates prévios travados em comum e, sobretudo, do próprio nível de consciência das massas trabalhadoras, conquistado em suas experiências diretas. Frente a um inimigo comum – como era o caso da ditadura instaurada em 1964 e cujo caráter de classe se explicitou, sem deixar margem a dúvidas, em 1968, com o AI-5 – seria esperável a constituição de uma unidade entre as forças de esquerda. Sabemos que isto não ocorreu. Muitas foram as causas da dispersão de esforços e de combates. Penso que parte delas estava inscrita na análise que as diferentes forças fizeram (ou deixaram de fazer) da natureza do regime instaurado em 1964 e, ainda, das causas que permitiram a vitória das forças de direita. Mas também pesaram as concepções estratégicas quanto à derrota da ditadura, a extração de classe dos resistentes e a conjuntura ideológica da época. Substantivamente, pesou igualmente a ponderação diferente que as várias forças de esquerda (profundamente debilitadas, pela repressão sistemática a que foram submetidas, em sua relação com as massas trabalhadoras) faziam do papel a ser desempenhado por estas mesmas massas.

Caros Amigos - Como a luta de massa se organizou na segunda metade dos anos 70?

Parece-me que estavam na direção mais correta aquelas forças (e este foi, entre outros, o caso do PCB) que entendiam a derrota da ditadura como resultado de lutas de massas. O fracasso do “modelo econômico” da ditadura (evidenciado claramente a partir de 1974-1975), as divisões que começaram a erodir a estreita base política do regime de 1964 e, sobretudo, a até então lenta reinserção da classe operária na cena política criaram as condições para que a resistência democrática deixasse os nichos em que subsistia e ampliasse o seu raio de influência. Frentes de luta até então subestimadas (contra a carestia, pela anistia e mesmo processos eleitorais) ganharam uma ponderação até então insuspeitada para muitos setores da esquerda.

Caros Amigos - Qual foi o papel desempenhado pelo sindicalismo no período pré-democratização?

Aqui, a resposta é simples: foi absolutamente fundamental. Mediante a ação do movimento operário-sindical é que se processou a reinserção das massas trabalhadoras (especificamente do proletariado) na cena política brasileira. Até então, a oposição e a resistência à ditadura tinham uma incontestável hegemonia burguesa (não se deve subestimar o papel do falecido Movimento Democrático Brasileiro/MDB); mediante a ação operário-sindical, que começa a ganhar vulto a partir de 1976-1977, a oposição burguesa é afetada, sua hegemonia na resistência institucional é ameaçada e a erosão do regime se acelera.

Caros Amigos - Qual foi a importância da esquerda no fim da ditadura e na redemocratização do país?

Já assinalei que a reinserção da classe operária na cena política, no último terço da década de 1970, foi o componente central para a derrota da ditadura. Foi através da dinamização do movimento sindical que esta inserção se viabilizou – e teve como efeito a catalização das demandas democráticas numa escala até então inimaginável, arrastando amplos setores das camadas médias, da intelectualidade e até mesmo de segmentos burgueses prejudicados no marco do “modelo econômico”. Não penso que este arco de forças, originalmente, possa ser visto como uma criação da esquerda – embora novos setores de esquerda e antigos militantes, que puderam sobreviver à repressão, tenham tido papel significativo na sua constituição. Mas é indiscutível que, com o quadro novo criado pela movimentação operário-sindical, distintas forças de esquerda, operando em especial a partir do fim do AI-5 e da anistia, deixaram a sua marca no processo de derrota da ditadura.

Caros Amigos - Como avalia o processo de surgimento do PT, da CUT e do MST?

Entendo que o surgimento do PT e da CUT estão diretamente ligados ao que designo como reinserção da classe operária na cena política brasileira – diria que ambos, emergentes nos anos 1980, são um fruto daquele processo. E um processo daquela relevância origina naturalmente, numa sociedade diferenciada e complexa, tal como já se apresentava a nossa na abertura daquela década, distintas expressões políticas. Nas suas origens, embora militando noutra organização política, vi o surgimento de ambos como algo basicamente positivo – porém, sempre tive preocupações em relação ao seu futuro, preocupações referidas à retórica “esquerdista” e sectária (quem não se lembra daquela bobagem eleitoreira de “trabalhador vota em trabalhador”?), às ligações internacionais (especialmente no caso da CUT) e, muito especialmente, à ignorância (nalguns casos, o desprezo) em relação ao passado de lutas dos trabalhadores e das outras forças de esquerda. Mas, à época, debitei tudo isto à necessidade natural de constituir uma identidade partidária e confiei em que a presença de lideranças expressivas de lutas sociais precedentes poderia fazer amadurecer esta identidade num sentido efetivamente de esquerda.

Penso que é diferente o caso do MST. Também fruto das condições que levaram à derrota da ditadura, o MST, a meu juízo, tornou-se um movimento verdadeiramente autônomo, com objetivos muito claros e uma estratégia de luta flexível e que leva em conta a experiência do passado. É bastante provável, em função das aceleradas transformações operadas no campo, que o movimento seja, na atualidade, compelido a repensar-se e a repensar a natureza e a função das suas lutas – mas me parece o único protagonista político significativo que põe em prática algumas referências próprias da esquerda, como a sistemática formação política e a solidariedade internacionalista.

Caros Amigos - O que representaram para a história da esquerda as eleições de 89?

O balanço, feito à distância, do processo eleitoral de 1989 é paradoxal. De uma parte, mostrou a força das aspirações democráticas num momento preciso – o saldo eleitoral, do ponto de vista imediato, foi notável: demonstrou a possibilidade efetiva de derrotar, nos marcos da institucionalidade formal, as forças da direita, desde que se realizasse, ainda que momentaneamente, uma unidade da esquerda e de setores democráticos (recorde-se que tanto os partidos comunistas quanto Covas e Brizola apoiaram Lula no segundo turno). De outra parte, o ganho organizativo, para o conjunto da esquerda, parece-me que foi pouco mais que residual – não teve a menor simetria com o ganho eleitoral.Mas é preciso dizer outra coisa importante: ficou claro que a grande burguesia, em processos eleitorais minimamente democráticos, não tinha, no final dos anos 1980, a menor chance de se viabilizar se apresentasse o seu próprio rosto (Collor nunca passou de um aventureiro político, que não expressava organicamente os interesses do grande capital; foi apenas um instrumento para evitar a vitória de Lula). E a grande burguesia aprendeu a lição: no processo eleitoral seguinte, foi obrigada a usar, para a defesa das suas posições, a maquiagem da esquerda – daí o seu apoio a FHC.

Caros Amigos - Como vê os rumos do PT desde então?

A resposta a esta questão já está implícita linhas acima e, de algum modo, inclui a pergunta subsequente. Os anos 1990 foram de um discreto, aparentemente suave e efetivo deslizamento do PT para o centro – já no primeiro confronto com FHC, desenhava-se o “Lulinha paz e amor”. Ao que parece, no fim da década, a esquerda foi inteiramente neutralizada no interior do PT – isto não significa, a meu juízo, que desde então deixaram de estar presentes no PT militantes de esquerda sérios, responsáveis e confiáveis. Mas tudo indica que são algumas rosas vermelhas num grande campo de braquiária. Posso estar enganado, mas, a partir de 2003, o PT converteu-se no gestor preferencial, para a grande burguesia, deste país. Permita-me recorrer a algo menor, mas que me parece extremamente simbólico: semana passada, a grande imprensa noticiou que o ex-presidente da República fez uma viagem ao exterior num jatinho de empresa do Grupo Gerdau, mantendo agradável palestra com o patriarca da família. Não sei se é fato, mas sei que é emblemático. Emblema de que já tivemos prova, aqui no Rio de Janeiro, há tempos: quando do falecimento de Roberto Marinho, Lula veio ao velório acompanhado de um séquito de ministros; no velório de Brizola, brilhou pela ausência.

Caros Amigos - Quais foram os efeitos da década neoliberal na esquerda brasileira?

Os efeitos – ainda que indiretos, mediatos e que precisam ser relacionados aos impactos derivados da queda do “Muro de Berlim” – foram catastróficos em todo o mundo e não se limitaram, obviamente, ao universo ideológico e ao imaginário político: o preço da ofensiva do grande capital foi e está sendo pago pelas massas trabalhadoras do mundo inteiro.

Sobre a esquerda brasileira, os efeitos foram imediatamente deletérios: o generalizado abandono do ideário socialista e, no limite, a sua conversão numa social-democracia tíbia e tardia. Forças que no passado tiveram expressiva participação na luta contra a ditadura e pela democratização do país converteram-se ou em abertos porta vozes da ordem (o caso do PT é certamente gritante, mas não se esqueça o posicionamento junto com o DEM – com o DEM! – que os ex-comunistas do PPS hoje efetivam) ou abdicaram do seu programa e da sua autonomia na prática política (o caso do PCdoB). Evidentemente, estamos defrontados com um processo social profundo, que não pode ser creditado a personalidades ou a oportunismos de ocasião. De qualquer forma, impera na esquerda “reciclada” pela ideologia dessa coisa realmente reacionária que grosseiramente se chama neoliberalismo um cinismo assombroso: ex-guerrilheiros que se tornaram paladinos da “cidadania”, ex-líderes sindicais outrora extremamente radicais defendendo/teorizando os/sobre a importância econômica e democrática de fundos de pensão, ex-expoentes de partidos comunistas predicando que a questão central sob o capitalismo está na distribuição e não no modo de produção e coisas que tais.

Caros Amigos - O que representou a eleição de Lula em 2002 para a esquerda brasileira? Como avalia desde então as forças de esquerda no país?

Do ponto de vista político imediato, o resultado eleitoral de 2002 foi uma derrota da direita e dos conservadores, uma derrota do grande capital. Do ponto de vista simbólico, foi extremamente importante a vitória de um líder político de extração operária.

Mas uma coisa foi a vitória eleitoral e outra, muito diversa, o desempenho político: a enorme legitimidade que as urnas conferiram a Lula para empreender a caminhada no sentido das grandes transformações econômicas e sociais foi direcionada para outro rumo – à base da reiteração do fisiologismo político, a adequação do minimalismo da política social à orientação macro-econômica de interesse do grande capital. Lula realizou uma eficiente gestão do status quo.

Que fique claro que estou longe de equalizar Lula (e tudo o que ele representa e expressa) a um líder submisso à direita e aos conservadores ou um mero instrumento do grande capital – mas seus dois períodos presidenciais estiveram aquém, inclusive, de uma prática política “possibilista”. E seu principal papel, no que tange à esquerda, foi desqualificá-la como capaz sequer de um governo “diferente” – e não será fácil, para a esquerda, livrar-se desta herança.

Caros Amigos - Por fim, como o senhor avalia o atual momento da esquerda brasileira?

Penso que se trata de uma conjuntura extremamente difícil (e, insisto, trata-se de um quadro mundial, que não diz respeito somente ao Brasil). O espectro da esquerda orgânica (bastante diferenciada: PCB, Psol, PSTU) e da esquerda que ainda subsiste no interior de alguns partidos (nomeadamente no PT) não reflete minimamente o peso potencial, mesmo que hoje minoritário, da esquerda na sociedade brasileira (como se pode constatar em movimentos como o MST e em grupos políticos minúsculos, mas que podem ser expressivos futuramente). Como escrevi há algum tempo, o nosso déficit é organizacional e ele não será superado da noite para o dia – temos, a esquerda, um longo caminho a percorrer.

A longo prazo (por mais que esta expressão provoque um sorriso nos keynesianos), sou otimista. As contradições e impasses da ordem do capital, inclusive como se apresentam na periferia, são insolúveis no seu marco – não há Bolsa Família, mesmo ampliado, que os resolva. As tensões acumuladas na nossa formação social não podem ser anestesiadas sem limites. Tenho, para mim, que está e continua em curso um processo de fundo que implicará numa agudização das lutas de classes. Se a normalidade da democracia formal não sofrer interrupção, a esquerda poderá perfeitamente superar a sua debilidade organizacional – desde que trabalhemos forte já desde agora – e cumprir o que dela se espera: vencer a cronificação da barbárie pelo avanço na direção do horizonte socialista.

José Paulo Netto é professor emérito da UFRJ e professor da Escola Nacional Florestan Fernandes.

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/noticias/1901-especial-esquerda-brasileira-jose-paulo-netto-qimpera-na-esquerda-reciclada-um-cinismo-assombrosoq

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Da Inconsciência da Arte: sua pretensão

Inconscientemente, fiz
Assim mesmo
Quase sem saber

Surgiram versos amuados
Despretenciosos
Ambiciosos
Despretenciosamente ambiciosos
Ambiciosamente despretenciosos
Famintos, enfim.
Da vida necessitados e já moribundos

Da mesma forma, sem querer
Me vi ali, frente a frente
Criador e criatura,
imagem e semelhança:
um borrão

Tomei consciência do que senti
E, contra a vontade,
Concordei comigo mesmo.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Da Vontade Como Representação ao Focinho de Porco que Não é Tomada e Nem de Verdade É

Não se sabe nunca o que se vai escrever. Pode-se até ter uma ideia sobre o que escrever, mas do pensamento até as palavras e destas até o texto e deste de volta ao pensamento o caminho é longo, cheio de curvas e, se você se descuidar, pode desavisadamente entrar num looping e ver seu texto dividindo lugar com mobiletes velhas rodopiando em um imaginário globo da morte como se ele fosse um conjunto de elétrons em volta do núcleo atômico. A imagem não é exata e, por isso, mesmo tentando, pode não apenas não ajudar como, pior, invariavelmente atrapalhar. É a maldição do exemplo: de serventia que tem como simples representação, como tal, não pode ser tomado como a coisa que se quer representar. Por isso, se, ao invés de tentarmos compreender a coisa representada por meio da representação, fixarmo-nos na representação como coisa representada, confundimos o essencial com a aparência e, com este espírito, corremos o risco de querer plugar a torradeira elétrica no focinho do porco que - porque artificial - serve apenas como cofre para as moedas.

Advertência: é só um exemplo.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

"A Velha Ordem Mudou"

"A primeira regra da justiça é preservar a alguém o que lhe pertence: essa regra consiste não apenas da preservação dos direitos de propriedade, mas ainda mais da preservação dos direitos da pessoa, oriundos de prerrogativas de nascimento e posição. [...] Dessa regra de lei e equidade segue-se que todo sistema que, sob a aparência de humanitário e beneficente, tenda a estabelecer uma igualdade de deveres e destruir as distinções necessárias levará dentro em pouco à desordem (resultado inevitável da igualdade) e provocará a derrubada da sociedade civil. A monarquia francesa, pela sua constituição, é formada de vários Estados distintos. O serviço pessoal do cleto é atender às funções relacionadas com a instrução e o culto. Os nobres consagram seu sangue à defesa do Estado e ajudam o soberano com seus conselhos. A classe mais baixa da Nação, que não pode prestar ao rei serviços tão destacados, contribui com seus tributos, sua indústria e seu serviço corporal. Abolir essas distinções é derrubar toda a constituição francesa".

In: Huberman, Leo. História da Riqueza do Homem. Ed. 20. Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1985, pp. 155-156.

Esta foi a posição do Parlamento Francês quando, em 1776 (ano da independência dos EUA e da publicação da Riqueza das Nações), Turgot - ministro das finanças da França - pensou em cobrar impostos do Clero e da Nobreza. 13 anos depois, a Bastilha era tomada pela "classe mais baixa da Nação". Num período de transição, de emergência de uma nova ordem social, os privilegiados tentam conservar sua posição. Nesta época, a burguesia também defendia o direito de propriedade: da sua. A história, no entanto, não pára...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"O Curriculum Mortis e a Reabilitação da Autocrítica", de Leandro Konder

A sociedade, modernizada, precisa de organização, eficiência. Para obter um emprego, para conseguir uma promoção, fazer carreira, o sujeito precisa exibir suas qualidades, ostentar seus êxitos. Já existem até manuais que ensinam o cidadão a preparar seu curriculum vitae. A trajetória ascensional de cada um depende dessa peça de literatura, que lembra as antigas epopéias, porque nelas o protagonista – o herói – só enfrenta as dificuldades para poder acumular vitórias. Os obstáculos servem apenas para realçar seu valor. O passado é reconstituído a partir de uma ótica descaradamente “triunfalista”.

Evidentemente, trata-se de uma imagem que não corresponde à realidade. Em sua imensa maioria os seres humanos não são campeões invictos, não são heróis ou semideuses. Se nos examinarmos com suficiente rigor e bastante franqueza, não poderemos deixar de constatar que somos todos marcados por graves derrotas e amargas frustrações. Vivemos uma vida precária e finita, nossas forças são limitadas, o medo e a insegurança nos freqüentam; e nada disso aparece no curriculum vitae de cada um de nós.

O curriculum vitae é a ponta do iceberg: ele é o elemento mais ostensivo de uma ideologia que nos envolve e nos educa nos princípios do mercado capitalista; é a expressão de uma ideologia que inculca nas nossas cabeças aquela “mentalidade de cavalo de corrida” a que se refere a escritora Dóris Lessing. Não devemos confessar o elevado coeficiente de fracasso de nossas existências, porque devemos ser “competitivos”. Camões, o genial Camões, autor de tantos poemas líricos maravilhosos, não poderia colocar em seu curriculum vitae o verso famoso: “Errei todo o discurso dos meus anos”.

A ideologia que se manifesta no curriculum vitae, afinal, aumenta as nossas tensões internas, porque nos dificulta a lucidez e a coragem de assumir o que efetivamente somos; nos obriga a vestir o uniforme do “super-homem”, a afetar superioridades artificiais. Além disso, ela incita à mentira, gera hipocrisia. Por sua monstruosa unilateralidade, a imagem do vitorioso, que ela nos obriga exibir, empobrece o nosso conhecimento de nós mesmos, prejudica gravemente a sinceridade da nossa auto-análise.

É uma ideologia capaz de explorar tanto a burrice como a inteligência; capaz de influir tanto sobre as vaidades primitivas como sobre as culturas refinadas. Para os indivíduos intelectualizados, ela se reveste de máscaras altamente sofisticadas. No caso dos artistas, ela usa a mitologia da genialidade e induz freqüentemente a pessoa a se alimentar de ambições desmesuradas. No caso dos intelectuais em geral, ela se apóia nos mecanismos seletivos da carreira universitária, aproveita as exigências de “publicidade” que se tornaram tão fortes na vida moderna e instiga uns a se afirmarem contra os outros: diminui a simpatia espontânea pelos colegas, a disposição real para aprender com eles, e se fortalece a desconfiança, cresce o impulso no sentido de demonstrar sua própria competência através da denúncia da incompetência alheia.

Claro que não teria sentido imaginarmos que o quadro deveria ser idílico e sonharmos com uma situação na qual os indivíduos jamais colidissem uns com os outros. Sabemos que as contradições nunca vão ser inteiramente suprimidas, que a existência delas é uma dimensão essencial da própria realidade. Sabemos também que o apreço por si mesmo é importante para todo ser humano: se não gostar de si mesma, nenhuma pessoa conseguirá gostar saudavelmente de outra; se não acreditar de fato em suas convicções, não conseguirá comunicá-las a outras pessoas, não conseguirá intervir no mundo, contribuindo para melhorá-lo. A partir de um determinado nível, contudo, a auto-estima fica sobrecarregada de narcisismo e acarreta uma atrofia conservadora da autocrítica.

Podemos então deixar de lado as condenações moralista – inócuas – do narcisismo. Elas são antigas e apresentam escasso interesse teórico. O problema que merece a nossa preocupação é outro: é aquele que se manifesta no efeito conservador da autocomplacência, que coagula o movimento auto-renovador da consciência, enrijecendo-lhe o ímpeto criativo e a abertura para o novo.

É provável que a estrutura da mente humana seja muito mais conservadora do que costumamos reconhecer. Renovar-se, reformular suas idéias, modificar seus valores, é operação dolorosa e arriscada. Quem parece realizá-la com alegre desenvoltura é o espírito frívolo, superficial e sem raízes, que está sempre disposto a acolher as novidades porque na realidade não as assimila (já que não assimila profundamente coisa alguma). Quando a vida obriga o ser humano a mudar os critérios e valores a que ele já tinha se acostumado e nos quais fundara a sua segurança, é natural que ele se angustie. Os próprios neuróticos, embora sofram, se agarram à neurose, porque têm medo de cair em um sofrimento ainda maior.

Nossas sociedades fragmentadas, divididas em grupos, em classes, em nações, em blocos de Estados, tornam muitíssimo mais difícil uma tarefa que por si mesma já é extremamente espinhosa: a de conhecermos as camadas mais profundas da realidade em que vivemos, penetrando gradualmente na essência mais significativa dos fenômenos, enxergando as coisas de um ângulo verdadeiramente universal, quer dizer, comum à humanidade como um todo. A humanidade está dilacerada, os indivíduos não sabem como agir para se tornarem uma encarnação dela. Não sabem o que há de mais universal neles. E isso contribui para que eles desistam da universalidade e se resignem a ser facciosos, unilaterais.

Sofremos todos a brutal pressão decorrente desse quadro, dessas condições. No entanto, volta e meia, no esforço para mudar o mundo, sentimos necessidade de nos unir a outros seres humanos em torno de princípios, que, por definição, precisam ser universais. Como superar o estreitamento dos nossos horizontes, provocado pelo mercado hipercompetitivo, que nos joga constantemente uns contra os outros? Os mecanismos do mercado forçam as pessoas a buscar lucros cada vez maiores, a disputar um lugar de trabalho melhor remunerado, ameçam-nas com o desemprego e a miséria, intimidam-nas com a falência; além disso, disseminam a insegurança e produzem a cristalização não só dos interesses materiais como dos modos de sentir e de pensar. Fortalece-se, nas criaturas, a exigência de forjar álibis.

Marx e Freud descobriram aspectos decisivos da ação das forças que atuam subterraneamente em nós e mostraram que, sob uma capa de “racionalidade”, elas impõem limites aos movimentos da nossa consciência. Mostraram como esquemas explicativos são elaborados e reelaborados em nossas cabeças com a finalidade de nos proporcionar a “boa consciência”, com o objetivo de amenizar nossas dúvidas, atenuar nossas inquietações e evitar a vertigem das nossas inseguranças.

Forjamos para nós imagens que nos ajudem a viver; e nos apegamos a elas. O autoritário se apresenta como “enérgico” e “corajoso”; o oportunista como “prudente” ou “realista”; o covarde com “sensato”; o irresponsável como “livre”. Não existe nenhuma tomada de posição no plano político ou filosófico que, por si mesma, imunize a consciência contra a ação desses mecanismos. Somos todos divididos, contraditórios. Por isso mesmo, precisamos promover discussões, examinar e reexaminar a função interna das nossas racionalizações. Quer dizer: precisamos realizar permanentemente um vigoroso esforço crítico e autocrítico.

A autocrítica é de uma importância decisiva. É por ela que passa o teste da superação do conservadorismo dentro de nós. Um conservador – é claro – pode fazer autocrítica; mas, se a autocrítica for feita mesmo para valer, ele seguramente não estará sendo conservador no momento em que a fizer.

Desde que consiga se instalar solidamente na consciência de alguém, o conservadorismo pode administrar uma grande flexibilidade: pode suportar com tolerância liberal as opiniões divergentes, até as provocações e irreverências alheias. Mas não pode se permitir o autoquestionamento radical.

George Bernard Shaw, que conhecia a significação da autocrítica, disse uma vez que o erudito era um homem que se valia de seus conhecimentos para criticar os outros, ao passo que o sábio era um homem que se criticava a si mesmo. No sentido que Shaw atribuiu à palavra, Marx era um sábio, porque não se limitou a criticar os outros, mas também cultivava – e como! – a autocrítica. Embora suas idéias sirvam de base para as certezas de milhões de militantes que invocam seu nome, Marx declarou a sua filha que, se tivesse de adotar um lema, seria a frase latina que recomendava duvidar de tudo: de omnia dubitandum. Ao completar cinqüenta anos de idade, numa situação de extrema pobreza, Marx escreveu para Engels uma carta (30.04.1868) na qual ria de sua própria incompetência para ganhar dinheiro: “Como minha mãe tinha razão quando dizia o Karl defia saper kanharr o capital (enfez de eskreferr sopre ele)...” (Marx imita jocosamente na carta a pronúncia de sua mãe). Em outra carta para o mesmo amigo de sempre concordava com uma observação de sua mulher, Jenny, que assegurava que, embora vivessem muito mal, após a vitória da revolução o casal passaria a viver pior, porque “teria o prazer de ver todos os charlatães comemorarem o triunfo deles.“ (11.12.1858). Marx não excluía a priori a hipótese de estar fazendo, em determinadas situações, papel de bobo.

Esse espírito autocrítico está presente também em Engels e em alguns marxistas de épocas posteriores, com Gramsci e Walter Benjamin. Ele assume traços de ascetismo nos anos “heróicos” do leninismo “puro”, mas se deteriora na ação dos partidos comunistas colocados sob a liderança de Stálin. A autocrítica se desmoraliza, deixa de ser um ajuste de contas do indivíduo consigo mesmo e é delegada à mecânica das agremiações: o militante faz a autocrítica que a direção do partido lhe impõe.

Agora, com os impasses com que se defronta o movimento comunista, com a ampla exigência de uma renovação do marxismo (no espírito de Marx), estão sendo criadas condições para que também os comunistas reaprendam o sentido da genuína autocrítica.

A verdadeira autocrítica exige uma espécie de “complementação negativa” para o curriculum vitae: depois de apregoar seus êxitos e seus méritos, a pessoa enfrenta o desafio de reconhecer suas frustrações, suas deficiências, seus fracassos, suas fraquezas. Talvez possamos chamar essa reconstituição dolorosa e necessária de curriculum mortis. Os indivíduos mais gravemente contaminados pela ideologia “triunfalista” que se manifesta no curriculum vitae carecem de sensibilidade, de madura lucidez e de coragem intelectual para a elaboração desse curriculum mortis. Eles agem como aquele político conservador que, numa entrevista, respondendo a uma pergunta sobre o maior erro que admitia ter cometido, explicou à estarrecida jornalista: “Meu maior erro tem sido o de dizer as coisas antes de todo mundo, cedo demais, quando os espíritos ainda não estão preparados para compreendê-las; isso desencadeia uma reação muito forte contra o meu pioneirismo.” Num passe de mágica, a autocrítica se transforma em auto-elogio.

Em nossos tempos de desconfiança, esses lances de prestidigitação tendem a surtir cada vez menos efeito. E, mesmo quando ainda conseguem iludir alguns incautos, eles trazem para os mistificadores talentosos vantagens precárias, pelas quais o mágico, afinal, acaba pagando, humanamente, um preço mais elevado do que supõe. Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte (e o prestidigitador não escapa a esse destino). Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável. Quem insiste em se iludir, na realidade, está optando por enfrentar despreparado todas as dores que lhe vão desabar em cima, na hora da desilusão. Os indivíduos que conseguem se elevar a um ângulo mais universal e conseguem discernir com clareza as limitações do ser particular deles, em princípio, devem estar em condições menos ruins para se defrontar com a morte (já que são capazes de reconhecer algo – a humanidade, Deus – acima de suas individualidades; e esse algo não morre).

A abordagem do tema da morte, aqui, pode parecer surpreendente; os marxistas não costumam escrever a respeito desse assunto (e há quem alegue, com alguma ligeireza, que a omissão se deve ao fato de eles se ocuparem preferencialmente dos problemas da vida). Na verdade, a compreensão de alguns dos problemas da vida só pode se aprofundar se nos dispusermos a refleti também sobre a morte, E há um precedente da maior importância na reflexão dialética sobre a morte; ele se encontra na Fenomenologia do Espírito, de Hegel.

Nesse livro, Hegel estuda – num nível notoriamente muito abstrato – o movimento da consciência, que parte da percepção sensível, imediata, e caminha para o que ele chama de saber absoluto. Em sua trajetória, a consciência assume diferentes figuras, A quarta figura desse itinerário é a autoconsciência e a quinta é a razão. Pois bem: para passar da autoconsciência à razão, é preciso pensar a fundo a questão da morte.

Para Hegel, a autoconsciência é uma figura na qual a consciência analisa as coisas, vai completando seu campo de entendimento, mas tende inevitavelmente a se encerrar em si mesma, a excluir o novo, a deixar de fora o negativo; ela tende então a se encastelar numa positividade enrijecida. Na medida em que sente necessidade de avançar, a consciência precisa, por conseguinte, superar essa figura; precisa se desembaraçar da sua segurança artificial, vencer seu medo, encarar o negativo. E a forma universal do negativo é, precisamente, a morte.

A conquista da razão, portanto, depende – segundo Hegel – da capacidade que a consciência venha a adquirir de olhar a morte de frente, aproximar-se dela, permanecer junto dela, conviver com sua presença assustadora (em vez de contorná-la e fingir que ela não existe). Só assim a consciência consegue se enriquecer, assumindo seriamente seus limites, incorporando – dolorosamente – a dimensão do negativo à sua compreensão do mundo e de si mesma. “O Espírito” – lê-se na Fenomenologia do Espírito – “só conquista a sua verdade quando é capaz de se encontrar a si mesmo na mais absoluta dilaceração.”

Essa indicação preciosa se perdeu, na história das lutas travadas pelos herdeiros da dialética hegeliana. A consciência dos marxistas, com o tempo, começou a apresentar sintomas daquela positividade enrijecida a que se referia o autor da Fenomenologia do Espírito. Difundiu-se uma concepção simplificadora, maniqueísta, da revolução: em rígida contraposição à “corrupção” burguesa, as organizações revolucionárias eram levadas forçosamente a exagerar sua “autenticidade nuclear”, sua “justeza fundamental” (minimizando conseqüentemente todas as deformações internas, todas as graves anomalias que se verificavam em seu interior). A genuína autocrítica definhou, o “triunfalismo” se impôs. Os revolucionários foram envolvidos por uma ideologia que não lhes cobrava maior empenho em crescerem porque os convencia de que já eram bastante grandes; uma ideologia que não os pressionava no sentido de indagarem mais a respeito das coisas e deles mesmos, porque lhes sugeria que eles já tinham as respostas essenciais.

Mas a história se rebelou contra os que proclamavam seus direitos sobre ela. A prática desmoralizou a teoria que se considerava sua carcereira e fugiu por todas as janelas. E o revolucionário foi obrigado a constatar, como qualquer homem comum, que a morte o está devorando a cada momento. Volta a se colocar, então, em nome da vida, a necessidade de incorporar o negativo à consciência. Através da autocrítica. Ou – se a expressão em latim não lhes parecer muito rebarbativa – através do curriculum mortis.

KONDER, L. O Marxismo na Batalha das Ideias. Ed 2. Ed. Expressão Popular: São Paulo, 2009, pp. 53-61.

Publicado originalmente na revista Presença (São Paulo), n. 1, 1983.

sábado, 18 de junho de 2011

Meteoro

Ontologia é uma palavra feia. Parece ser coisa de outro mundo! Não é à toa que, na tradição filosófica, ela é reconhecida geralmente como da área da metafísica. Nós, meros mortais, que pensamos não termos nada de filósofos, acreditamos nunca ter pensado nada em termos ontológicos. Aliás, se não fosse tão incomum e se, por outro lado, tivesse algum apelo comercial, poderíamos começar a encontrar ontologias sendo vendidas em cada lojinha de R$ 1,99.

Acontece, entretanto, que, se a palavra é pouco usual, o seu significado é utilizado mais do que coca-cola. Quem nunca disse ou nunca ouviu a seguinte afirmação: "o ser humano é uma droga mesmo", o "homem é essencialmente egoísta", "a natureza humana é individualista", etc. etc. Todas estas afirmações são de caráter ontológico, porque são definições gerais sobre o "ser" e, neste caso, sobre um ser específico: o ser humano. Ao definir o que é essencialmente um ser, você automaticamente define os limites estruturais para além dos quais nenhuma alteração é possível. No caso acima, se a essência humana é individualista, egoísta, mesquinha, etc. a sociedade capitalista é a forma social adequada àquela essência e qualquer proposta de transformação social está condenada a priori ao fracasso por esbarrar nos limites da tal da natureza humana.

A História, no entanto, nos ajuda um pouco na desmistificação disso. Se a natureza humana é tal como definida acima, significa que Aristóteles estava certo ao dizer que os escravos eram apenas "animais falantes"; que, afinal, não foi perda de tempo a célebre discussão no interior da Igreja Católica à época dos "descobrimentos" da América sobre a humanidade ou não dos nativos de além-mar; que os aproximadamente 80 mil anos de existência humana anterior ao surgimento das primeiras sociedades de classe eram anti-naturais.

Para aqueles que não gostam de História por considerar que isso é coisa de velho e que não é importante porque não estava vivo naquela época, o filme "Meteoro" ajuda a desmistificar toda esta ontologia formada enquanto ideologia no curso de desenvolvimento da sociedade burguesa ocidental. O filme conta a história de um grupo de trabalhadores que, após a construção de Brasília, se dedica a abrir as estradas que ligarão a nova capital federal plantada no centro do cerrado ao resto do país. Durante o planejamento da construção da estrada que ligará Brasília à Fortaleza, estes trabalhadores encontram um imenso deserto, que, entre outras coisas, dificulta a realização do projeto, a não ser que eles encarassem o desafio hercúleo e estúpido de cortar o deserto no braço. Enquanto eles aguardam orientações quanto ao "quê fazer", vem o Golpe Militar e eles ficam esquecidos no meio do nada.

Todo o filme narra, então, o esforço empreendido por estas pessoas para sobreviverem em sociedade em um meio ambiente completamente hostil, contando apenas com algumas ferramentas e os seus conhecimentos sobre a vida "civilizada". Dadas as novas condições sociais de sobrevivência, eles criam uma nova organização social.

É muito interessante, porque, dentre outras coisas, este filme é baseado em uma história real.

Assistam! É sempre bom variar um pouquinho!


Ano: 2007

Diretor: Diego de la Texera

Elenco: Cláudio Marzo, Nicolas Trevijano, Daisy Granados, Maria Dulce Saldanha, Leandro Hassum, Luci Ferreira, Paula Bulamarqui.

Sinopse: Na década de 60, durante o período desenvolvimentista, iniciado por JK, um grupo de trabalhadores inicia a construção da estrada Brasília-Fortaleza, para ligar a nova capital com o nordeste brasileiro. Porém, em 1964 com o golpe militar, os trabalhadores são esquecidos no meio do nada junto com um grupo de prostitutas que os visitava mensalmente. Assim, trabalhadores e prostitutas, acabam por fundar a nova sociedade de Meteoro.

Formato: AVI Tamanho: 816 Mb

Downloadeie

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cronicamente Inviável

Lançamento: 2000 (Brasil)

Direção: Sérgio Bianchi

Elenco: Cecil Thiré, Betty Gofman, Dan Stulbach, Daniel Dantas

Formato: Avi Tamanho: 693 Mb

Sinopse: As relações entre frequentadores, proprietários e empregados de um prestigiado restaurante de São Paulo são as pedras de toque para descortinar uma ácida visão da crise brasileira. Entram em foco as mais surpreendentes situações de aproximação e conflito entre diferentes raças e classes sociais, de várias regiões do país, revelando, sem qualquer concessão, a impossibilidade de uma cultura nacional homogênea.

Alfredo viaja pelo Brasil realizando pesquisas para escrever seu novo livro. Vive e tenta compreender os problemas de dominação e opressão social. Adam, descendente de poloneses, sofre com a discriminação de outros imigrantes europeus em sua cidade no Paraná. As histórias de um e outro convergem para o restaurante em São Paulo, onde Adam vai trabalhar como garçom e Alfredo encontrar os amigos: Luís, Maria Alice, Carlos e Amanda. Maria Alice e Carlos são um casal de família tradicional do Rio de Janeiro. Ela tem uma postura idealista diante dos problemas sociais. Carlos é um economista que acredita no pragmatismo e na racionalidade do capitalismo. Amanda, de origem pantaneira e passado nebuloso, é gerente do restaurante. Luís, o proprietário, é um homem de meia idade, refinado, com a distinção das boas maneiras, ao mesmo tempo irônico e pungente. Acredita na civilidade como forma de defesa ante a violência social.

Adam introduz a subversão na ordem do restaurante. Destaca-se dos demais empregados tanto pelo aspecto físico, quanto por sua insubordinação e virulência. Sua presença expõe a fragilidade dos acordos sociais e a desestabilização atinge a todos, incluíndo Luís e Amanda. Numa noite em que o restaurante é assaltado, Luís é seviciado. Adam intervém e leva um tiro. Alfredo prossegue sua viagem. Na Amazônia, defronta-se com o garimpo predatório e as imensas queimadas. Na selva, sofre um ferimento na perna. Maria Alice, no Rio, é submetida a outros assaltos e violência. O marido continua tirando proveito da bagunça típica do país, mas não consegue entender-se com trabalhadores como os motoristas de táxi, que dirigem a toda velocidade, desrespeitando todas as regras de sobrevivência no trânsito.

Na última cena, estão todos reunidos no restaurante, num jantar de despedida para Luís, que decidiu morar fora do país, por preferir uma violência "explícita e civilizada". Carlos está com a mandíbula fraturada, conseqüência de um acidente. Alfredo teve que amputar a perna. Adam ficou paralítico. Maria Alice tornou-se uma megera ressentida. Amanda é uma executiva de sucesso, proprietária de uma casa de adoção, fachada para o tráfico de órgãos de crianças para a Europa.

Fonte: Webcine

Downloadeie

segunda-feira, 6 de junho de 2011

III Seminário Margem Esquerda - István Mèszáros: o desafio do tempo histórico

De 18 de Agosto a 1 de Setembro de 2009, a revista Margem Esquerda e a Boitempo Editorial promoveram um intenso e extenso debate a respeito de um dos maiores intelectuais marxistas da atualidade: István Mèszáros. Disponibilizo abaixo os áudios de algumas das mesas onde a obra de Mèszáros é apresentada por ele mesmo e discutida por intelectuais brasileiros e latino-americanos.

A necessária reconstituição da dialética histórica -István Mészáros (precedido por um solo de Bach em viola, por Susie Mészáros)
Downloadeie

Educação e Socialismo -Afrânio Mendes Catani, Décio Saes, Isabel Rauber e Roberto Leher
Downloadeie

Marx, Lukács e os intelectuais revolucionários - Antonino Infranca, Emir Sader, Maria Orlanda Pinassi e Ricardo Musse
Downloadeie

Marxismo, lutas sociais e revolução na América Latina - Aldo Casas, Francisco de Oliveira, Gilmar Mauro e Lúcio Flávio de Almeida
Downloadeie

O Poder da Ideologia - Miguel Vedda, Osvaldo Coggiola, Virginia Fontes e Wolfgang Leo Maar
Downloadeie

Para além do capital – a crise estrutural do capital - Edimilson Costa, François Chesnais, Jorge Beinstein
Donwloadeie

Para além do capital – lógica destrutiva e questão ambiental - Brett Clark, Carlos Walter Porto-Gonçalves, Mohamed Habbib e Plínio de Arruda Sampaio
Downloadeie

Trabalho e Alienação - Giovanni Alves, Jesus Ranieri, Ricardo Antunes e Ruy Braga
Downloadeie

terça-feira, 24 de maio de 2011

Annie Hall

Ano: 1977

Diretor: Woody Allen

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts

Sinopse: Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) conta a história de Alvy Singer (Woody Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há quinze anos. Ele acaba se apaixonando por Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora em início de carreira, e com a cabeça um pouco complicada. Em pouco tempo estão morando juntos e não demora para se iniciar um período de crises conjugais.

"Jamais faria parte de um clube que permitisse a entrada de alguém como eu. (Annie Hall 1977)".

Em 1977, recebeu o Oscar de melhor filme por “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall) e não compareceu na cerimônia, dizendo que estava ocupado tocando clarinete com sua banda. Allen nunca pediu a aprovação de seus colegas e da alta cúpula de Hollywood, sabia que aquele prêmio era envolto em politicagem e decidiu se afastar dessa auto-celebração fútil.

Formato: Avi

Tamanho: 689 Mb

Downloadeie

O Pervertido Guia Para o Cinema (The Pervert´s Guide To Cinema)

Ano: 2006

Diretor: Sophie Fiennes

Formato: Avi

Tamanho: 681 Mb

Sinopse: O que pode a psicanálise dizer-nos sobre o cinema? Esta é a pergunta a que THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA se propõe responder. O filme conduz o espectador através de uma estimulante viagem por alguns dos maiores filmes de sempre. O guia e apresentador é Slavoj Zizek (lê-se Slavói Chichec), o carismático filósofo e psicanalista esloveno. Na sua apaixonada abordagem ao pensamento, vasculha a linguagem escondida do cinema, revelando o que os filmes podem dizer-nos sobre nós próprios. Seja destrinçando os enigmáticos filmes de David Lynch, ou deitando por terra tudo o que se pensava saber sobre Hitchcock.

O filme estrutura-se a partir do próprio mundo dos filmes que discute; filmado em ambientes originais ou em réplicas dos cenários, cria-se a ilusão que Zizek fala a partir do interior dos próprios filmes. “The Birds” e “Psycho”, de Hitchcock são abordados por Zizek, considerando que aquele realizador é, provavelmente, o mais freudiano de todos.

Prestem atenção à comparação que Zizek faz entre os três andares da assustadora mansão de Norman Bates (“Psycho”) e o conceito freudiano de Id, Ego e Superego. O psicanalista esloveno expõe os seus argumentos de forma tão natural e convincente e ao mesmo tempo tão rápida, que a nossa mente começa a girar vertiginosamente. Está estruturada em três partes: a primeira, está dedicada a Alfred Hitchcock e Lynch, e é sobre a diferença entre a realidade e os desejos; a segunda, é sobre a libido e a terceira é sobre a eficiência das aparências, centrada principalmente na obra de Tarkovsky e Chaplin.

Vale ressaltar o engraçadíssimo sotaque de Zizek.
Fonte: Filmow



Downloadeie

domingo, 22 de maio de 2011

"A Fina Flor da Malandragem", de Sérgio Vaz

Duzão é piloto, e o que dá fuga à essa malandragem. Na madrugada, a bordo de um Mercedes, dirige certo por vias tortas.

Aninha já passou o ferro em várias madames, dizem por aí que pra mais de vinte.

Cabeção tem olhar de rapina e um iceberg no coração, quando entrea no banco já vai direto no caixa.

Colorau não age na quebrada, gosta de fazer mansão.

Lu ganha a vida distribuindo suas ideias através de um pó branco comprimido, a molecada fica alucinada. Nada contra quem mexe, mas ela nunca meteu a mão no pó dos outros.

Vavá não pode ver carro parado que leva, se não der na chave leva nas costas.

Lourival mete o cano desde criança, o pai de virava no alicate, e nunca teve medo de cerca elétrica.

Como teve problemas de berço, Mariana pega o filho dos outros e devolve por uma quantia mínima.

Julião põe medo em muita gente, também pudera, já enterrou vários com uma pá na mão.

Salete limpou a casa de Sonia, quem deu a fita foi a Rose, que se bobear limpa até as casas dos parentes.

Marcio resgatou Sales da cadeia, e saiu do presídio pela porta da frente, ninguém fez nada.

Elizabeth quase não ri, é uma espécie de gerente da boca, na rua dizem que ela é a patroa.

Nego Jan vende tudo que pega: relógio, TV, DVD, Eletrodomésticos em geral, carro, moto, corrente de ouro, roupa de marca, e demais mercadorias. Sua lábia é mais afiada que lâmina de gigolô.

Zóio tem problemas com a injustiça e está no semiaberto, passa o dia na oficina e a noite dorme no 3° andar. Quando pode, Guida e preto Will, parceiros de caminhada, o visitam no domingo.

Luciana não tem medo de sangue, já ajudou a cortar vários desconhecidos, muitos cagam de medo de morrer na mão dela.

Wilsinho não tem medo de nada, já passou o revólver até no carro da polícia.

As pessoas acima são suspeitas de ter a coragem de trabalhar, e enfrentar o dia a dia com a dignidade que só o sofrimento ensina, e por mais simples que sejam, nunca se evadiram da responsabilidade de lutar.

A malandragem fica por conta de que lê.

Sérgio Vaz é poeta e fundador da Cooperifa.

Publicado no n. 168 (Março de 2011), p. 19 da Revista Caros Amigos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Banda Mais Bonita da Cidade

Weber não estava completamente certo.

Certo, o mundo anda desencantado, a economia do dinheiro solapa as possibilidade mais imediatas de constituição autêntica de individualidades, a racionalização burocratizadora da vida social alcança os poros mais subcutâneos, reifica-nos fortemente, mas há espaços e alternativas e saídas emancipatórias. Uma delas é a política revolucionária. A outra é a arte.

Sobre as potências da arte, fica de exemplo o clip abaixo. Do que se precisa para fazer coisas boas darem certo? Pessoas juntas! Para a arte e para a política.

Fiquei sinceramente emocionado com essa música e com esse clip.




Coloco, para download, algumas músicas em mp3 da banda mais bonita da cidade.




Downloadeie

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Blogs do Além - Blog do Neruda


O E-MAIL E O POETA


Poesia é aquele gênero que todo mundo adora, mas só meia dúzia lê. Nunca figura na lista dos mais vendidos. O poeta, pra virar conhecido, precisa ganhar prêmio, ter seus poemas musicados ou, sei lá, inspirar algum filme de sucesso. No meu caso, as três coisas aconteceram. Nunca me faltou reconhecimento. Mas o que me deixou famoso, postumamente, até mesmo na parada de ônibus, foi o filme O Carteiro e o Poeta. Lembram? Essa película fez muito sucesso na década de 90. Era o filme que todo mundo gostava de gostar.

O enredo era mais ou menos esse: durante o meu exílio político em uma charmosa e bela ilha da Itália (na verdade me exilei na fria Isla Negra – pertencente ao Chile), para manter a minha correspondência em dia, eu contrato um carteiro extra. Esse sujeito, quase analfabeto, aprende, através da convivência comigo, a escrever seus sentimentos por sua amada. Ele acaba conquistando-a (depois dizem que a poesia não serve pra nada). E eu, em troca, ganhei um ouvinte atento e compreensivo para as lembranças saudosas de minha pátria.

Estou contando isso porque, esses dias, eu li num caderno de informática que o e-mail vai desaparecer. Os autores do artigo sustentam que as mensagens enviadas através de redes sociais, telefones celulares e comunicadores tipo Messenger estão relegando ao velho e-mail o papel de trafegar apenas as informações comerciais. Mais ou menos o que aconteceu com a nossa caixa de correspondência, que hoje não passa de um amontoado de contas e malas-diretas nos vendendo coisas que não precisamos. Com exceção de uma oferta de pílulas azuis sem receita que estão muito em conta, mas isso não vem ao caso agora.

O e-mail ainda era o último elo natural com a arcaica carta de papel. Mesmo que seu envio fosse instantâneo e sem selo, sua lógica obedecia aos princípios de sua antecessora. Há muita gente preocupada com o embate livro físico x livro digital. Mas vejo poucos atentos a um gênero literário que está com os seus dias contados: a correspondência. Gênero esse que já produziu obras de grande relevância, como Carta ao Pai de Kafka, Na missiva, Kafka fazia um ajuste de contas com seu autoritário pai. No fim, nem a enviou ao seu progenitor, ficou com medinho. Nos dias de hoje, essa pérola literária seria reduzida a um mero SMS dizendo: pai, larga do meu. Abs K. E o mundo ficaria sem saber que aquelas loucuras envolvendo baratas, absurdos e burocracia até que eram bem razoáveis, para quem teve um pai como aquele. Falar em pai, o da psicanálise teve a correspondência de mais de 34 anos com sua filha, Anna, reunida em livro. E assim curiosos e profissionais puderam estudar a intimidade de Freud. Se esse material fosse produzido hoje, só teríamos coisas como:

- Chegou bem, filha?
- Cheguei.
- E o seu id e o seu superego também?

Num mundo onde é possível se comunicar a qualquer hora, em qualquer lugar e de diversas maneiras, a carta deixou de ser útil, perdeu seu sentido original.

Uma pena. Os livros de correspondência nos forneciam outro tipo de dado sobre a intimidade, registravam com muita naturalidade os momentos individuais e coletivos. Mas não adianta reclamar. É um caminho sem volta e rápido. Em breve, a revista CartaCapital se chamará SMS Capital, Papai Noel só receberá tuites das crianças e condutores precisarão tirar DM de motorista. Uma coisa será boa. Livros como Cartas Entre Amigos de Gabriel Chalita e padre Fábio de Melo também deixarão de existir.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Contos da Meia Noite 2

Havia esquecido que tinha outros contos da meia noite para disponibilizar aqui. Vou continuar postando os vídeos e, depois, vou colocar os arquivos em mp3. Fica bem legal ir caminhando pela rua ouvindo os contos.

Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria - Antônio Alcântara Machado (por Mateus Nachtergaele)

Belinha - Marcelino Freire (por Walmor Chagas)

Carta de um Defunto Rico - Lima Barreto (por Beth Goulart)

Diário de Amor de um Moço Delicado - Ribeiro Couto (por Mateus Nachtergaele)

Dois Corpos que Caem - João Silvério Trevisan (por Antônio Abujamra)

Eu Estava Ali Deitado
- Luis Vilela (por Mateus Nachtergaele)

O Arquivo - Victor Giudice (Antônio Abujamra)

O Plebiscito - Artur Azevedo (por Antônio Abujamra)

Porque Lulu Bergantin Não Atravessou o Rubicon - José Cândido de Carvalho (Antônio Abujamra)

Sino de Ouro - Julia Lopes de Almeida (por Beatriz Segall)

Suje-se Gordo! - Machado de Assis (por Mateus Nachtergaele)

A Caolha - Júlia Lopes de Almeida (por Marília Pera)

Bugio Moqueado - Monteiro Lobato (por Giulia Gam)

Gringuinho - Samuel Rawet (por Mateus Nachtergaele)

Vozes do Morto - Moreira Campos (por Maria Luisa Mendonça)

domingo, 15 de maio de 2011

"Marx: os revolucionários também amam", de Leandro Konder


"No peito do desafinado também bate um coração"
Tom Jobim e Newton Mendonça

Marx e o amor são duas palavras que dificilmente encontramos juntas, uma ao lado da outra. O que os ligaria, afinal? O que teriam a ver, um com o outro, o teórico militante da luta de classes e o sentimento sublime cantado pelos poetas? Que impressão produziriam, reunidos num mesmo quadro, o enérgico filósofo barbudo e o deus menino Eros, filho de Afrodite? Só o nosso tempo, fascinado por audácias anticonvencionais e questionamentos (revisões) dilacerantes, poderia descobrir interesse nessa estranha aproximação.

Em 1847, Marx irritou-se bastante quando encontrou ecos da retórica cristã sobre o amor em escritos de Feuerbach. Para ele, Feuerbach idealizava e superestimava os impulsos afetivos do ser humano, tinha uma visão contemplativa da sensibilidade e não levava suficientemente em conta a atividade criadora de que o homem é capaz, seu poder de transformar-se e transformar o mundo.

Marx acusava os "princípio sociais do cristianismo" de projetar no céu a compensação de todas as infâmias sofridas na terra. Considerava essa perspectiva inaceitável, porque enfraquecia a combatividade, num período em que os lutadores precisavam travar grandes combates. Quando foi da Alemanha para Paris, convenceu-se de que o portador material da causa da libertação da humanidade era o proletariado.

A adesão do intelectual Marx à causa da classe operária não foi uma adesão friamente pensada. Ao participar de uma reunião clandestina de trabalhadores, Marx emocionou-se com a fisionomia dos operários socialistas: "[...] a fraternidade dos homens não é nenhuma frase, mas sim verdade para eles, e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir d[ess]as figuras endurecidas pelo trabalho". E isso foi escrito em 1844, bem antes de O Capital.

Uma das causas mais profundas da repulsa que Marx sentia pelo capitalismo estava justamente em sua convicção de que o modo de produção capitalista não só introduz grave "alienação" na relação entre sujeito-trabalhador e o fruto do seu trabalho, como cria um terrível "estranhamento" na relação dos homens uns com os outros que os torna extremamente inseguros, hipercompetitivos, e solapa as bases da solidariedade humana. Sufocada pela estreiteza dos horizontes classistas, a consciência dos homens experimenta enorme dificuldade em compreender os problemas universalmente, quer dizer, do ângulo do gênero humano.

A alienação tem suas raízes no trabalho, porém abrange, com grande variedade de formas, todas as atividades do homem. Ela coloca o ser humano em doloroso conflito com ele mesmo, com seus semelhantes e com a natureza (inclusive com o que existe nele de irredutivelmente natural).

A propriedade privada deforma tudo, leva-nos a crer que o homem rico é aquele que possui coisas, quando na realidade o homem "naturalmente" rico é aquele que sente com mais intensidade a necessidade interior de se realizar através de múltiplas manifestações vitais, isto é, aquele cuja atividade essencial sensível está carregada de paixão.

Essa paixão, no sentido que Marx atribui ao termo, não se confunde com a palavra usada com frequência para designar surtos entusiásticos, arrebatadamente adolescentes, que no entanto não ultrapassam as fronteiras dos horizontes do individualismo. O autor de Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 escreveu: "a dominação da essência objetiva em mim, a irrupção sensível da minha atividade essencial é a paixão".

Colocada em nossa atividade essencial sensível, universal e humana, a paixão tem uma significação especial na relação entre homens e mulheres.

"A relação imediata, natural, necessária, do homem com o homem é a relação do homem com a mulher. Nesta relação genérica natural a relação do homem com a natureza é imediatamente a sua relação com o homem, assim como a relação com o homem é imediatamente a sua relação com a natureza, a sua própria determinação natural. Nesta relação fica sensivelmente claro portanto, e reduzido a um factum intuível, até que ponto a essência humana veio a ser para o homem natureza ou a natureza [veio a ser] essência humana do homem. A partir desta relação pode-se julgar, portanto, o completo nível de formação (die ganze Bildungsstufe) do homem".

A relação do homem com a mulher põe a nu a degradação a que chegam os seres humanos em sociedades marcadas pela divisão social do trabalho, pela propriedade privada. E Marx insiste: na relação do homem com a mulher vê-se "até que ponto a carência do ser humano se tornou carência humana para ele", quer dizer, "até que ponto ele, em sua existência mais individual, é ao mesmo tempo coletividade (Gemeinwesen)".

Em outra passagem de Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Marx adverte o leitor: "Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um [comportamento] humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança etc.". Nas condições da alienação, todavia, o dinheiro - a capacidade exteriorizada (entäusserte) da humanidade - quantifica e relativiza tudo, subverte todos os valores, "transforma a fidelidade em infidelidade, o amor em ódio, o ódio em amor, a virtude em vício, o vício em virtude".

O texto em que Marx esclareceu pela primeira vez alguns aspectos decisivos de sua perspectiva filosófica já deixava ver em seu pensamento uma concepção antropológica do amor. O amor é uma "maneira universal" que o ser humano tem de se apropriar do seu ser como "um homem total", agindo e refletindo, sentindo e pensando, descobrindo-se, reconhecendo-se e inventando-se.

A propriedade privada complica as coisas, dificulta tanto a compreensão com a experiência vivida do amor: "o lugar de todos os sentidos físicos e espirituais passou a ser ocupado, portanto, pelo simples estranhamento de todos esses sentidos, pelo sentido do ter". E o capitalismo torna o problema ainda mais agudo.

Depois de 1844, Marx não voltou a dedicar atenção ao tema, porque outras questões lhe pareceram ter implicações mais diretas e profundas nos conflitos políticos em que se achou envolvido. Quando o amor aparecia nos escritos que estava lendo, o filósofo marcava posição.

Em A sagrada família, ele ridicularizou Edgar Bauer, representante da chamada "Crítica crítica", porque este se referia ao amor como uma "criancice". Marx fustigou a abstratividade e o intelectualismo do outro: "O que a Crítica crítica quer combater com isso não é apenas o amor, mas tudo aquilo que é vivo, tudo que é imediato, toda experiência sensual, toda experiência real".

Marx também foi sarcástico em relação a Max Stirner e a outro campeão da "Crítica crítica" de nome Szeliga. Disse que Szeliga reduzia "o verdadeiro amor sensual à secretio seminis [secreção seminal] mecânica". E afirmou que a relação entre as teorias muito especulativas de Max Stirner e o estudo do mundo real era uma relação análoga àquela que existia entre o onanismo e o amor sexual.

Marx não tinha nenhuma tendência a flutuar no plano da teoria como num limbo: ele vivia o que pensava. A luta política, os estudos, as dívidas e as preocupações financeiras, nada disso o absorvia tanto a ponto de fazê-lo esquecer o amor que tinha por sua mulher, Jenny.

Sua concepção do amor como um dos meios da realização do "homem total", como um dos modos de o ser humano apropriar-se universalmente do seu ser, não pode ser desligada de seu engajamento amoroso existencial, quer dizer, de sua relação amorosa com Jenny.

O jornalista francês Pierre Durand escreveu um livro interessante a respeito desta relação. Nele estão reconstituídas todas as principais peripécias e vicissitudes de um grande amor, cuja história atravessa numerosas crises ao longo de mais de 45 anos.

Em 1836, aos dezoito anos de idade, Marx apaixonou-se por Jenny, que era quatro anos mais velha do que ele. Pediu-a em casamento, ela aceitou. Como o pretendente não tinha condições de se casar, os dois foram obrigados a esperar oito anos.

Jenny fazia muito sucesso na cidade de Trier, era admirada nas festas e não teria dificuldade para desposar algum pretendente rico; ela era a filha dileta do primeiro conselheiro, o barão Ludwig von Mestphallen. Quando aceitou se casa com o jovem filho do cristão-novo Hirschel Marx, a situação tornou-se tão insólita que de início o noivado permaneceu em segredo.

Karl Marx, o noivo, foi para Berlim. De lá, enviava à noiva poemas transbordantes de carinho, saudade e má literatura. Voltando a Trier de férias, oficializou o noivado. Pretendia tornar-se professor de filosofia, chegou a doutorar-se, porém o clima político na Prússia piorou e o filósofo só conseguiu arranjar trabalho como jornalista. O casamento só se realizou em junho de 1843.

A vida do casal, como se sabe, foi atribuladíssima. Instalaram-se em Paris, onde Marx foi diretor de uma revista que teve um único número e fracassou. Em dado momento, acusado de desenvolver atividades políticas "subversivas", foi mandado para a Bélgica. Regressou à Alemanha, editou um jornal em Colônia e acabou se fixando em Londres, como exilado, por mais de trinta anos.

Marx e Jenny tiveram muitos filhos: a filha mais velha nasceu em Paris, em 1844, ano em que os Manuscritos foram escritos. A segunda filha, Laura, nasceu em Bruxelas, em 1845. Edgar também nasceu em Bruxelas, em 1846, e morreu oito anos e meio mais tarde. Já Guido nasceu em Londres, em 1849, e viveu somente um ano. Francisca, nascida igualmente em Londres, em 1851, teve o mesmo destino trágico do irmão: morreu com um ano de idade, Eleanor, a caçula a quem todos chamavam de Tussy, teve mais sorte: nasceu em 1855 e sobreviveu.

Dos seis filhos nascidos, afinal, sobreviveram apenas as três mulheres. E das três - evidentemente marcadas pela dramática vida dos pais -, duas (Eleanor e Laura) viriam mais tarde a se suicidar.

A vida privada de Marx não foi menos agitada do que sua vida pública. Um episódio em particular foi ocultado durante muito tempo e só mais de um século depois é que foi possível reconstituí-lo. Em 1962, o historiador alemão Werner Blumenberg comprovou que em 1851 Helene Demuth, criada de Jenny e oito anos mais nova do que ela, teve um filho de Marx. Engels, o fiel amigo, assumiu a paternidade da criança para ajudar o apavorado Karl. O menino Friedrich Demuth foi entregue a uma família no East End de Londres que cuidou dele às custas de Engels. Friedrich viveu até 1929. Eleanor, a mais jovem das filhas de Marx, chegou a saber da verdade. O próprio Engels, no fim da vida, impossibilitado de falar, rabiscou a informação numa lousa. Eleannor chorou muito. Depois, estabeleceu contato com seu meio-irmão e pareciou muito suas qualidades humanas.

Eleanor matinha com Edward Aveling uma relação amorosa muito sofrida. Um mês antes de se suicidar, ela escreveu uma carta a Friedrich, em que lhe dizia: "Considero-o um dos maiores e melhores homens que já conheci". Mesmo que o tom da declaração pareça um tanto exagerado, talvez funcionando inconscientemente com uma compensação pelas decepções sofridas com o pai e o com o amante, a admiração da meia-irmã depõe a favor do enjeitado Friedrich.

Em meio a todas as tempestades, enfrentando agruras, fugindo dos credores, preocupado com as filhas, Marx lutou a vida inteira pelo afeto de sua mulher, Jenny. Há numerosos testemunhos, diversas cartas que o comprovam.

Uma carta de Marx a Jenny, escrita em 21 de junho de 1856, quando ele estava em Manchester, é particularmente expressiva. Ela nos traz algo do viço e da impetuosidade de vinte anos antes. Marx começa dizendo: "Amadinha do meu coração, torno a te escrever porque estou sozinho e porque me cansa ficar dialogando na minha cabeça o tempo todo, sem que tomes conhecimento disso, sem que possas me ouvir e responder".

Em seguida, ele conta que beija sempre o retrado dela e sonha com ela. "Beijo-te dos pés à cabeça, caio de joelhos diante de ti e gemo: amo-a, minha senhora. De fato, te amo. E te amo mais do que o mouro de Veneza jamais amou". (A comparação com Otelo se deve ao fato de que o apelido de Marx na família era "mouro".) Adiante, ele escreve: "Quem, entre os meus numerosos caluniadores, quem, entre os meus inimigos maledicentes, já me acusou de ter vocação para desempenhar o papel de apaixonado num teatro de segunda categoria? Nenhum. No entanto, essa acusação seria verdadeira".

E prossegue: "Certamente sorris, meu bem, e perguntas por que de repente eu venho com toda essa retórica. Se eu pudesse, contudo, apertar teu coração doce contra o meu coração, então me calaria, não diria mais nada".

A existência de outras mulheres, até bonitas, é reconhecida por Marx, porém elas não lhe interesssam: "Na realidade, existem muitas outras mulheres e algumas delas são belas. Mas onde eu encontraria de novo um rosto no qual cada traço - e mesmo cada ruga - seja capaz de evocar as lembranças mais fortes e deliciosas da minha vida".

Em outro trecho, o pensador revolucionário volta, mais uma vez, a discorrer em termos gerais sobre o amor. Não o faz em termos filosóficos, como nos Manuscritos de 1844, mas em função de sua experiência de homem apaixonado. Diz ele:

"Basta que estehas longe e meu amor por ti aparece como ele é, como um gigante no qual se acham reunidas toda a energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva muito eficazmente a nos sentirmos fracos, pequenos, indecisos e titubeantes. Porém o amor - não o amor feuerbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, por ti) - torna a fazer do homem um homem".

Um dos efeitos perniciosos da alienação manifesta-se na cisão da personalidade, no abismo criado entre a vida pública e a vida privada. A paixão que Jenny inspira a Marx estimula-o a reagir contra a exagerada separação entre as duas esferas e fortalece no interior de sua alma as tendências comprometidas com a unidade.

É claro que o fortalecimento da unidade é sempre precário, o equilíbrio precisa ser constantemente reconquistado em meio a grandes tumultos. O filósofo sabia disso. Ele conhecia e apreciava uma frase de Shakespeare - e a cita no primeiro volume de O Capital - que diz: "O curso do verdadeiro nunca é sereno".

Marx não foi só um defensor do amor no plano teórico, mas foi também um praticante radical do amor em sua relação com Jenny. Quando ela morreu, em 1 de dezembro de 1881, Engels previu, desanimado: "O 'mouro' não vai sobreviver". De fato, Marx ficou arrasado. Numa carta ao amigo, em 1 de março de 1882, ele escreveu: "Você sabe que há poucas pessoas mais avessas ao patético-demonstrativo do que eu. Seria, contudo, uma mentira não confessar que grande parte do meu pensamento está absorvida pela recordação da minha mulher, boa parte da melhor parte da minha vida".

Em seus escritos, o número de lapsos de linguagem aumenta. Sua saúde piora a cada semana. Os genros - Lafargue e Longuet - despertam-lhe crescente irritação. Um ano e quatro meses após a morte de sua mulher, também ele, afinal, se extingue.

In: Konder, L. Sobre o Amor. São Paulo: Boitempo, 2007, pp. 19-26.

sábado, 14 de maio de 2011

A Single Man

Diretor: Tom Ford

Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Ginnifer Goodwin, Matthew Goode, Nicholas Hoult

Sinopse: Los Angeles, 1962, no pico da Crise dos Mísseis de Cuba. George Falconer é um professor universitário de 52 anos, a tentar encontrar de novo um sentido para a vida, depois da morte do seu companheiro de sempre, Jim. George mergulha no passado e não consegue imaginar o seu futuro, quando o acompanhamos durante um único dia, onde uma série de encontros e acontecimentos o levam a decidir se afinal haverá ou não sentido para a vida depois de Jim. George é consolado pela sua amiga chegada Charley, uma beldade de 48 anos, também ela a lutar com as suas próprias questões acerca do futuro. E um jovem estudante de George, Kenny, que se está a aceitar como ele é, persegue George, vendo nele uma alma gêmea.

Formato: AVI Tamanho: 692

Downloadeie

Budapeste

Direção: Walter Carvalho

Elenco: Leonardo Medeiros, Gabriella Hamori, Giovanna Antonelli

Sinopse: José Costa (Leonardo Medeiros) é um bem sucedido ghost writer. Ao retornar do Congresso de Escritores Anônimos, em Istambul, uma ameaça de bomba faz com que seu vôo aterrisse em Budapeste, na Hungria. Logo ao chegar, se apaixona pelo idioma local. Já de volta ao Rio ele reencontra Vanda (Giovanna Antonelli), sua esposa, e o filho. Entretanto sua vida torna-se cada vez mais infeliz, o que faz com que comece a murmurar em húngaro enquanto dorme. Para salvar o casamento Costa passa a escrever autobiografias, numa tentativa de que a vida de outras pessoas o salve do tédio que sente. Seu maior sucesso comercial é "O Ginógrafo", que conta as aventuras amorosas de um alemão, Kaspar Krabbe (Antonie Kamerling), no Brasil. Só que Vanda se apaixona por Krabbe, acreditando ser ele o autor do livro, o que faz com que Costa sinta-se traído e ressentido com o trabalho que exerce.

Formato: AVI Tamanho: 690 Mb

Downloadeie

Não Estou Lá

Direção: Todd Haynes

Elenco: Christian Bale, Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Richard Gere

Sinopse: Bob Dylan (Christian Bale / Cate Blanchett / Heath Ledger / Marcus Carl Franklin / Richard Gere / Ben Whishaw), ícone musical, poeta e porta-voz de uma geração. Sempre viveu em constante mutação ao longo da vida, especialmente durante os anos 60. Musicalmente, fisicamente, psicologicamente, as alterações do seu personagem público dialogaram com acontecimentos sociais e ocasionaram múltiplas repercussões culturais. De jovem menestrel a profeta folk, de poeta moderno a roqueiro, de ícone da contracultura a cristão renascido, de caubói solitário a popstar.

Formato: RMVB Tamanho: 352 Mb

Downloadeie

O Carteiro e o Poeta

Direção: Michael Radford

Elenco: Massimo Troisi, Philippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta, Renato Scarpa.

Sinopse: Por razões políticas o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) se exila em uma ilha na Itália. Lá um desempregado (Massimo Troisi) quase analfabetoé contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade.

Formato: AVI Tamanho: 698 Mb

Downloadeie

sábado, 7 de maio de 2011

Entre os Muros da Escola

O problema da escola. É a esta discussão que se dedica este filme francês. A evidência imediata dos conflitos de um suposto "choque de civilizações" que o filme manifesta não pode ser ampliada exageradamente ao ponto de obscurer uma visão mais de fundo e que se configura nas possibilidades ou não de uma educação redentora. A escola como microcosmo da sociedade, como locus de produção de uma força social contra-hegemônica, como ambiente de pura reprodução do status quo, etc. É esta a discussão que o filme provoca. Está no dia-a-dia dos professores lidando com a indisciplina, está entre os muros da escola, está fora deles, está fora da França, está entre os muros do capital, está para além dele? Onde está?

Ano: 2008
Diretor: Laurent Cantet
Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi.
Sinopse: François Marin (François Bégaudeau) trabalha como professor de língua francesa em uma escola de ensino médio, localizada na periferia de Paris. Ele e seus colegas de ensino buscam apoio mútuo na difícil tarefa de fazer com que os alunos aprendam algo ao longo do ano letivo. François busca estimular seus alunos, mas o descaso e a falta de educação são grandes complicadores.

Formato:
RMVB legendado Tamanho: 403 Mb

Downloadeie

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Belchior - Na Hora do Almoço



No centro da sala,
Diante da mesa,
No fundo do prato,
Comida e tristeza.
A gente se olha,
Se toca e se cala
E se desentende
No instante em que fala.
Medo, medo, medo...
Cada um guarda mais o seu segredo,
A sua mão fechada,
A sua boca aberta,
O seu peito deserto,
A sua mão parada, lacrada
E selada,
E molhada de medo.
Medo,medo,medo...
Pai na cabeceira: é hora do almoço.
Minha mãe me chama: é hora do almoço.
Minha irmã mais nova, negra cabeleira...
Minha avó reclama: é hora do almoço.
Moço, moço, é hora do almoço!
E eu ainda sou bem moço
Pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
Cuidemos da vida,
Senão chega a morte
(ou coisa parecida)
E nos arrasta, moço
Sem ter visto a vida
Ou coisa parecida
Ou coisa parecida
Ou coisa parecida

Sobrado 112

Tenho ouvido muito ultimamente este grupo. Até agora eles lançaram três discos: no primeiro disco, o flerte é marcadamente com o samba; no segundo, a presença mais forte é do ska e do reggae (sem exagerar em nenhum dos dois) (tem até uma que faz um blues da hora); o último continua na linha do segundo com a diferença de ser instrumental.

É de muita qualidade. Sonzeira!

Desmanche (2007)




Downloadeie






Isso Nunca me Aconteceu Hoje (2009)





Downloadeie






No País da Skapolca (2011)





Downloadeie