segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Estou lendo "Fausto", de Goethe

Nada mais atual do que um clássico!

Somos, no geral, culturalmente medíocres. Nosso pouco conhecimento da história nos permite cometer auto-enganos, como, por exemplo, identificar problemas "atuais" com problemas do "agora". Qual não é nossa surpresa quando "encontramos" em textos como Fausto - cuja escrita Goethe terminou em meados de 1830 - elementos que seriam recuperados, por exemplo, pela Escola de Frankfurt, na segunda metade do século XX. De Shakespeare a Goethe estes elementos estão postos: a relação entre as determinações essenciais do modo capitalista de produção e a produção cultural humana. E a gente lidando com isso até hoje. Segue a exposição dos dilemas do romântico poeta com a exigências da arte como comércio.

DIÁLOGO PRELIMINAR (Um teatro ambulante, ainda em início)

O empresário, o poeta (homem idoso) e o gracioso da companhia


EMPRESÁRIO

Amigos! (que ambos vós já bastas vezes

nas aflições e apertos me salvastes)

vingará na Alemanha a nossa empresa?

Quero agradar ao público, e preciso,

que o público é real, e eu vivo dele.

Demos que está já pronto o barracório,

o teatrinho armado, e cada ouvinte

no seu lugar, ansioso de festança.

Repimpam-se, arqueando as sobrancelhas;

Vêm todos com tenção de embasbacar-se.

Eu na arte de embair não sou dos pecos;

hoje, porém, confesso, estou com susto.

Não anda o povo afeito a mãos de mestre,

mas lê, lê muito; um ler que mete medo.

Como hei-de eu conseguir que ele ache em tudo

novidade, substância e graça às pilhas?

‘Stou nas minhas três quintas quando vejo,

acudir-me gentio às rebatinhas,

chegar ainda com dia, antes das quatro;

atirar-se ao balcão do bilheteiro

como em tempo de fome à padaria,

e esmurrarem-se à pesca de um bilhete.

Milagre tal em tão mesclada gente,

só poetas de truz. Toca a tenta-lo!


O POETA

Não me fale do populacho,

a cujo aspecto a inspiração desmaia,

remoinho humano, que nos leva à força.

Ascenda-se ao recesso aberto a poucos,

ao mundo celestial da fantasia,

onde poetas só têm gozos puros,

onde amizade e amor com mão divina

a paz do coração produzem, velam.

O que então do imo peito nos prorrompe,

e nem sempre na voz logra exprimir-se,

embrião, que talvez contém portentos,

que vezes não o afoga a actualidade!

Mas não raro igualmente esmeros de arte

do diuturno desprezo alfim triunfam.

Quem de brilhos se apaga abdica os evos.

Vão à posteridade as obras-primas.


O GRACIOSO

Mas que é posteridade, ou que te importa?

Não trate eu de agradar aos com quem vivo,

ao cheiro do louvor dos porvindouros!

Quem nos pede folgança é o nosso povo;

fartemo-lhes a vontade. É boa gente,

e gente que se vê. Na alternativa

entre ausente e presente, este é quem ganha.

Como lhe hás-de agradar? mui facilmente.

Quem deseja com gosto ser ouvido

há-de aos gostos da turba se acomodar-se.

Quanto mais auditório, mais efeito

fará nele o protótipo de gênios,

que, dando rédea larga à fantasia,

lhe leva a par o sólito cortejo

de afetos, de paixões, de luz, de graças...

e, para adubo, um grão de extravagância.


EMPRESÁRIO

Muita ação sobretudo. Os circunstantes

querem ver e mais ver. Chovam sucessos

uns sobre os outros a flux. Folga a plateia,

na curiosa abundância embasbacada;

entra o poeta em moda, e cresce em fama.

Pela turba é que a turba se conquista:

cada qual tem seu gosto; o que um refuga,

outro vem que o prefere. Assim, dar muito

cifra a receita de agradar a todos.

Armar de peças mil uma só peça

é que é o non plus ultra; afortunado

o poeta que o logra: é mestre cuque

de chanfana afamada entre os fregueses.

Há comédia que chegue a um embrechado,

que se arma, enquanto o demo esfrega um olho,

e enquanto esfrega o outro, se desmancha?

O compacto! A unidade! História; petas.

Que vale ao ramalhete ser tuchado,

se a crítica lá está que ri do junco,

e uma a uma das flores lhe desfolha?


O POETA

Mas que ignóbil mister! que oprobrioso

Para artistas de lei! Já nós lá vamos?

Já se admite a aldrabice desses tunos,

Que dão gato por lebre em coisas d’arte?


EMPRESÁRIO

Barro o sarcasmo. O artífice de joias

convenho em que se esmere em ferramenta;

achas, quem quer as faz co’uma podoa.

Apuros, para quê? Para que ouvintes?

Este vem aborrido, aquele impando

de festim lauto; e, o que é pior, não poucos

da Babel jornalística aturdidos.

Vêm aqui, como vão às mascaradas:

matar tempo; açodados, porém frios...

curiosos, quando muito. E as damas? Essas

trá-las o empenho de assoalhar os luxos;

são atrizes gratuitas; são figuras

que só trabalham pelo amor da glória.

Já basta de quiméricos Parnasos.

Obténs enchentes; aplaudem-te; vês nisso

motivo de ufanar-te? Observa atento

a gente que em Mecenas se te arvora:

metade dela é fria, o resto bronco.

Um tomara-se já no fim da peça,

para se ir ao baralho que o namora.

Outro está já na ideia pregustando

a noite que vai ter entre os abraços,

no seio nu de delirante Frine.

Para relé tão pífia invocar musas!

valha-vos Deus, basbaques da poesia!

Se agradar pretendeis, teimo na minha:

adi ação, mais ação, ação que farte.

O ponto é pôr os cérebros num caos;

contentá-los em cheiro era impossível!...

.......................................................................

(Vendo o poeta quase a ponto de se ir em delíquio)

Que tens? É pasmo? É êxtase? São dores?


O POETA

Deixa-me, por quem és; busca outro escravo!

Para ajudar-te na tua perversa empresa

de arrancar no mundo o siso, o gosto,

querias que o poeta assim brincando

seus foros naturais renunciasse?

Como é que ele os afetos senhoreira?

Com que poder subjuga os elementos?

Não será coa harmonia entre ele e o mundo?

Ele a absorver do mundo as maravilhas,

E a expandi-las depois com brilhos novos?

Enquanto indiferente a natureza

vai torcendo no fuso o eterno fio,

e a tão discorde multidão dos entes

se entrebate estrondosa e dissonante;

quem vos tira a expressão pela fieira,

e a vivifica e a inunda de harmonias?

Tantos entes diversos, desconjuntos,

quem os une em convívio harmonioso?

Quem transforma paixões em tempestades?

Quem acende arrebóis na mente escura?

No caminho da amada quem semeia

as flores mais louçãs da primavera?

Quem de tênues folhinhas entretece

C’roa, que a todo o mérito permeie?

Quem funda Olimpos? Quem despacha deuses?

A força do homem, convertida em estro.


O GRACIOSO

Bem! Pois saca proveito dessa força!

Dê coisas de substância a tal poesia

- mal comparado – à laia dos namoros:

Encontram-se uma e um; foi mero acaso.

Há simpatia; ninguém sabe o como.

Nenhum pensa em fugir, nem quer, nem pode.

Vão, mole-mole, uns laços invisíveis

Prendendo os corações. Cresce o deleite;

dá-se às invejas pasto; acordam zelos;

principia a amargura; e quando a gente

mal de precata, armou-se uma novela.

Ouve um conselho!

Imagens a granel; clareza pouca;

erros mil; de verdade um raio apenas.

Oh que misto! Oh que pinga saborosa!

Ninguém há que a não trague, e que a não louve.

A flor da mocidade então se apinha;

espia o desenlace; exalta a peça,

onde crê ver inspirações divinas.

Cada alma terna então sorve com ânsia

suave melancólico alimento;

ora isto, ora aquilo a impressiona;

cada um vê na cena o que em si acha;

ei-los prestes às lágrimas e aos risos;

à audácia, à execução vozeiam loas.

São de ruim contento os Padres Mestres.

Noviços, qualquer coisa os enamora.


O POETA

Já vão longe os meus tempos de noviço,

manancial de cânticos perenes,

ignorância do mundo, inexperiência

que num botão de flor Édens previa.

Então sim, que topava em cada vale

boninas que ceifar. Eu nada tinha...

e tinha tanto!: o anelo da verdade,

cobiça d’ilusões.

Oh! Restitui-me

esses doutrora indômitos impulsos:

a dita agridulcíssima; a energia

do aborrecer, do amar. Oh! restitui-me,

se podes, restitui-me a mocidade!


O GRACIOSO

A mocidade, meu amigo, é boa

Para coisas que eu sei: - Num contra muitos,

por exemplo, é boníssima. – No aperto

de nos saltear um rancho de moçoilas,

à porfia a pender-se-nos do colo,

é mais que boa, é ótima. E no curso,

quando o premio além-meta nos acena,

mas indo ao longe! E quando, ao fim da valsa

rodopiada, frenética, se deve

levar o mais da noite em bona-chira!

Agora lançar mão das áureas cordas,

costume vosso antigo, e dedilhá-las

com graça e fogo, volitar no rumo

de assunto que vos praz... senhores velhos,

ninguém vo-lo proíbe; é jus da idade;

e nem menos por isso vos honramos.

Diz que a velhice é nova infância! História;

não é tal; continua a infância antiga.


EMPRESÁRIO

Basta de altercações; queremos obras.

Venha coisa que sirva. Eu cá não creio

no que dizeis de estar-se ou não disposto.

Todo esse rodear de palavrório

só diz: míngua de veia; é procurá-la.

Quem uma vez se recebeu coa musa,

Ganhou jus marital; resiste? Obrigue-a.

Sabeis o que se quer: bebidas fortes;

fermentá-las, e já. Quem não fez hoje,

amanhã não tem feito; um dia é muito.

Audácia pois! Agarra pelas repas

a ocasião fugaz; não tens remédio,

segue-a no voo, e está logrado o empenho.

No teatro alemão tudo se admite,

bem sabeis; nada pois de acovardar-te.

Pede afoito cenários, maquinismos,

lua, sol, astros, água, luz, rochedos,

feras e aves sem conto. Na barraca

podes meter a criação em peso.

Voa sem confusão, desde o supremo

Empíreo, à varia terra, ao negro inferno!


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sou um Caso Perdido - Mario Benedetti

Por fim um crítico sagaz revelou
(eu já sabia que iam descobrir)
que nos meus contos sou parcial
e tangencialmente apela
que assuma a neutralidade
como qualquer intelectual que se respeite

creio que tem razão
sou parcial
disto não tem dúvida
mais ainda eu diria que um parcial irrecuperável
caso perdido enfim
já que por mais esforço que faça
nunca poderei chegar a ser neutral

em vários países deste continente
especialistas destacados
fizeram o possível e o impossível
para curar-me da parcialidade
por exemplo na biblioteca nacional do meu país
ordenaram o expurgo parcial
dos meus livros parciais
na Argentina me deram quarenta e oito horas
(e senão me matavam) para que me fosse
com minha parcialidade nos ombros
por último no peru incomunicaram minha parcialidade
e a mim me deportaram

de ter sido neutral
não teria necessitado
essas terapias intensivas
porém que se vai fazer
sou parcial
incuravelmente parcial
e mesmo que possa soar um pouco estranho
totalmente
parcial

já sei
isso significa que não poderia aspirar
a tantíssimas honras e reputações
e preces e dignidades
que o mundo reserva para os intelectuais
que se respeitam
quer dizer para os neutrais
com um agravante
como cada vez existem menos neutrais
as distinções se dividem
entre pouquíssimos

além disso e a partir
das minhas confessas limitações
devo reconhecer que a esses poucos neutrais
tenho certa admiração
ou melhor lhes reservo certo assombro
já que na realidade é necessário uma têmpera de aço
para se manter neutral diante de episódios como
girón
tlatelolco
trelew
pando
la moneda

é claro que a gente
e talvez seja isto o que o crítico queria me dizer
poderia ser parcial na vida privada
e neutral nas belas-letras
digamos indignar-se contra Pinochet
durante a insônia
e escrever contos diurnos
sobre a atlântida

não é má ideia
e lógico
tem a vantagem
de que por um lado
a gente tem conflitos de consciência
e isso sempre representa
um bom nutrimento para a arte
e por outro não deixa flancos para que o fustigue
a imprensa burguesa e/ou a neutral

não é ma ideia
mas
já me vejo descobrindo ou imaginando
no continente submerso
a existência de oprimidos e opressores
parciais e neutrais
torturados e verdugos
ou seja a mesma confusão
cuba sim ianques não
dos continentes não submergidos

de modo que
como parece que não tenho remédio
e estou definitivamente perdido
para a frutífera neutralidade
o mais provável é que continue escrevendo
contos não neutrais
e poemas e ensaios e canções e novelas não neutrais
mas aviso que será assim
mesmo que não tratem de torturas e prisões
ou outros tópicos que ao que parece
tornam-se insuportáveis para os neutros

será assim mesmo que tratem de borboletas e nuvens
e duendes e peixinhos

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Modelo para una teoría del conocimiento - Hans Magnus Enzensberger

Aquí tienes una caja,
una caja grande
con una etiqueta que dice
caja.
Ábrela,
y dentro encontrarás una caja,
con una etiqueta que dice
caja dentro de una caja cuya etiqueta dice
caja.
Mira adentro
(de esta caja,
no de la otra)
y encontrarás una caja
con una etiqueta que dice...
y así sucesivamente,
y si sigues así,
encontrarás
tras esfuerzos infinitos
una caja infinitesimal
con una etiqueta
tan diminuta,
que lo que dice
se disuelve ante tus ojos.
Es una caja
que sólo existe
en tu imaginación.
Una caja perfectamente vacía.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street

"Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha".

Publicado originalmente no blog da Boitempo em 11/10/2011.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fazendo arte: é hora de perder a paciência - Mauro Iasi

Aos gritos de “é hora de perder a paciência” os trabalhadores da cultura, membros de coletivos culturais, grupos de teatro, de dança, de música, poetas, pintores, músicos e outros seres míticos e estranhos ocuparam a sede da FUNARTE no último dia 25 de julho de 2011, protestando contra os cortes no orçamento da cultura promovido pelo governo Dilma pelas PECS 150 e 236 que retira deste campo cerca de 2/3 dos recursos atualmente destinados, os já minguados 0,06% dos recursos orçamentários.

Chegaram por lá, entraram e fizeram o que sabem fazer de melhor: arte. Dançaram, cantaram, musicaram, perfomatizaram, poetizaram numa alegria irritante, própria de jovens e artistas, ou seja, gente que não tem nada de mais útil para fazer, tal como produzir mais valia, avançar o crescimento, estudar, comprar coisas e assistir comportados e apassivados aos “bens culturais” na televisão à cabo ou no fast-food da indústria cultural.

A FUNARTE os olhava com um estranhamento compreensível. Como um filho que volta depois de muito tempo e não é reconhecido pelos pais, como um bode diante de um cartaz, como nos falou Maiakóviski, ou na expressão de Leandro Konder comentando certo autor diante de Hegel: como um camelo diante de uma catedral. Uma performance sem projeto, sem verba, sem aprovação, sem mecenas, sem isenção, sem Rouanet, ali feita por seres humanos, bravos e alegres, três elementos sem os quais a arte é impossível.

Mas os impacientes trabalhadores da cultura não ficaram só fazendo arte, sentaram-se em roda e debateram, ouvindo com atenção seus companheiros e mestres, e amigos, enfim, gente que eles respeitam porque são gente, como Iná Camargo, Luis Carlos Moreira, o Daniel Púglia, até o Zé Celso Martinez passou por lá, dizem que o Luis Carlos Scapi estava presente, também falaram o Gilmar Mauro e o Paulino do MST, coisa estranha misturar a arte com a vida e a política, estes caras não podem ver uma ocupação.

A Iná e o Moreira falaram: o que vocês querem? Verba? Querem que o Estado que representa os interesses do capital financie uma cultura que se nega a ser mercantilizada? Em tempos de defensiva como naquele em que vivemos, “qual o papel de nós artistas na construção de um processo que pode culminar num horizonte revolucionário”? Disse Iná.

Que sentido tem fazer arte neste mundo no qual nos encontramos e que não queremos que perdure? Precisamos começar afirmando que a objetivação na forma de arte não tem um sentido em si mesmo, essencial e, portanto, a-histórico. Isso que está aí e que desprezamos, o objeto cultural na forma de mercadoria, ou seja, que para que possamos fruir seu valor de uso temos que realizar seu valor de troca, afinal é ou não é arte?

Afirmar que não é guarda um risco não pequeno de imaginarmos uma essencialidade da arte fora das formas reais de sua manifestação. É arte, arte na forma mercadoria, capturada pelo mercado e submetida à lógica do capital e sua reprodução, material e ideológica. Não há nenhuma essencialidade da arte a ser resgatada de sua prisão mundana que a corrompe. Dizia Marx, em Manuscritos econômico-filosóficos:

“(…) meu objeto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças essenciais, portanto só pode ser para mim da maneira como a minha força essencial é para como capacidade subjetiva, porque o sentido de um objeto para mim vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, por causa disso é que os sentidos do homem social são sentidos outros que não os do não social.”

Aquilo com que nos denfrontamos objetivado numa forma particular de bem cultural (no caso como mercadoria) é, portanto, objetivação de uma de nossas capacidades subjetivas, e nós o vemos como tal. Se é verdade que a música desperta o sentido musical no ser humano, como diz Marx, também é verdade que a mais bela música “não tem nenhum sentido para o ouvido não musical”, assim como para o faminto a comida não tem forma humana (é só culinária e não arte culinária), o comerciante de minerais só vê o valor de troca e não a beleza peculiar do mineral, em suma “a objetivação da essência humana, tanto do ponto de vista prático como teórico, é necessário tanto para fazer humanos os sentidos do homem quanto para criar sentido humano correspondente à riqueza inteira do ser humano natural”.

Vamos tentar entender isso. Ao objetivar um das dimensões de nossa subjetividade, nos humanizamos, mas podemos fazer isso em condições tais que o produto de nossa objetivação social e histórica se volte contra nós de maneira hostil e estranhada (por exemplo, na forma mercadoria), aí nos desumanizamos. O fato é que, se entendemos as pistas de Marx, somos nós que criamos nossa desumanização ao criar e manter as relações que nos desumanizam, mas neste paradoxo esta a chave de sua superação, isto é, como disse o mesmo autor se os seres humanos são produto das circunstâncias é necessário tornar humanas as circunstâncias que nos produzem.

Neste ponto que a afirmação segundo a qual o sentido de um objeto vai tão longe quanto vai o sentido humano que o orienta pode nos ajudar a pensar o papel específico da arte. A arte mercadoria faz sentido, porque reflete na produção artístico cultural o estágio de nossa objetivação histórica, esta merda chamada sociedade capitalista. Mas a arte como parte da práxis pode e deve ir além daquilo que expressa. Lukács, em “Introdução aos estudos estéticos de Marx e Engels”, já nos alertava que a arte sempre luta contra duas correntes aparentemente opostas: de um lado aquela que afirma que arte deve representar fielmente o real e, de outro, aquela que entende a produção artística como um puro jogo da forma, vazia em si mesmo de conteúdo e de relação com o real.

O problema, como já anunciava o mesmo Lukács, é que em época de decadência como a nossa, estas duas tendências tendem a se fundir: a rendição ao real e á pseudoconcreticidade e o domínio das formas num jogo vazio. O que desaparece nesta síntese tão bem descritiva dos descaminhos da chamada pós-modernidade e a construção do humano como humano e seu vir a ser, isto é, a arte como simultaneamente o reflexo de todo nosso desenvolvimento cristalizado nas formas presentes do real em que nos encontramos e os germes que a partir daí no remetem ao futuro pelo jogo de suas próprias contradições.

Neste registro que podemos entender a afirmação marxiana segundo a qual a “educação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até aqui” (Marx). Nossas objetivações artísticas não refletem apenas o que somos (ainda que em grande parte o façam), mas o que podemos ser a partir do que somos. Nossa arte que se pretende revolucionária deve expressar, necessariamente, nosso drama de ser de uma ordem mercantil e se levantar contra ela e na defesa da humanidade, entendida como a recriação humana das circunstâncias humanizadas contra e para além da ordem da mercadoria e do capital. Mas, dá para viver disso sem se corromper pagando as contas com poesias?

Mas essa não é uma contradição específica dos artistas. Se não tomarmos cuidado assume a forma de um dilema puramente pequeno burguês, aí pobre de mim que sou poeta e sensível, dividido entre dois mundos, aquele em que vivo e aquele que sonho. Cantemos, então, com Álvaro de Campos:

Coitado do Álvaro de Campos!

Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

(…)

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma! (Poema “Sou Lúcido” de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa)

Assim somos todos nós, proletários que não temos como viver a não ser vendendo nossa força de trabalho por que nos expropriaram de nossos meios de produção e de expressão. Neste sentido, o que os trabalhadores tem a dizer aos artistas é: bem vindo ao mundo em que nós já estamos faz muito tempo e que vocês se negavam a ver.

O que podemos, então exigir do Estado burguês? Por analogia falemos da educação. Quando Lassale pedia “educação popular geral e igual a cargo do Estado”, Marx (em Crítica ao Programa de Gotha) respondia: “isso de educação popular a cargo do Estado é completamente inadmissível”. E propunha que o necessário seria estabelecer por meio de uma “lei geral”, os recursos para o funcionamento das escolas e capacitação e remuneração dos professores, zelando, entretanto, para “subtrair da escola toda a influência por parte do governo e da Igreja”, e completava: não queremos o Estado como educador do povo. Algo assim deveríamos exigir para que possamos viver (e pagar as contas) como trabalhadores da cultura, produzindo arte nesta sociedade e contra ela.

Por fim, tenho um agradecimento a fazer: meu poema “Quando os trabalhadores perderem a paciência” (publicado em Meta amor fases, São Paulo: Expressão Popular, 2011), virou palavra de ordem nas bocas impacientes daqueles que vivem para a cultura e são trabalhadores. Para um poema que saiu da vida, voltar a ela pelas mãos de quem luta é a melhor homenagem. Obrigado.

Sugestões de leitura:

MARX, K. Crítica ao Programa de Gotha [1875]. São Paulo: Boitempo, no prelo.

_________. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.


LUKÁCS, G. Introdução aos estudos estéticos de Marx e Engels. In: Arte e Sociedade: escritos estéticos 1932-1967. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2009.

Publicado originalmente no blog da Boitempo em 05/10/2011.


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Quando os Trabalhadores Perderem a Paciência

As pessoas comerão três vezes ao dia
E passearão de mãos dadas ao entardecer
A vida será livre e não a concorrência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos
O trabalho deixará de ser um meio de vida
As pessoas poderão fazer coisas de maior pertinência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
Quando os trabalhadores perderem a paciência

A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil
Enquanto é a fome que vai virar indecência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Não terá governo nem direito sem justiça
Nem juizes, nem doutores em sapiência
Nem padres, nem excelências

Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca
Sem que o humano se oculte na aparência
A necessidade e o desejo serão o termo de equivalência
Quando os trabalhadores perderem a paciência

Quando os trabalhadores perderem a paciência
Depois de dez anos sem uso, por pura obscelescência
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá:
“declaro vaga a presidência”!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tese 6 sobre o Conceito de História de Walter Benjamin e o 18 Brumário de Marx

Seria possível estabelecer um paralelo entre estes dois excertos, especialmente nas partes destacadas?

Tese 6 - Walter Benjamin

"Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi'. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta no momento do perigo ao sujeito histórico sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer" (grifo meu).





18 Brumário de Luís Bonaparte - Karl Marx


"Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, ligadas e transmitidas do passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar a nova cena da história do mundo nesse disfarce tradicional e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789/1814 vestiu-se alternadamente como a República Romana e como o Império Romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793/1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para a sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela" (grifo meu).

Karl Marx e a Comuna de Paris - José Paulo Netto

Marx e os embates na esquerda hegeliana - Aula do Seminário "Leituras Marxistas" da Pós-Graduação em Educação da Unicamp

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Moça Que Mostrava a Coxa - Carlos Drummond de Andrade



























Penélope Cruz
A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
qual pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-dalva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Carta a Stalingrado - Carlos Drummond de Andrade

















Nós somos uma geração medíocre. Lembro de ter lido em algum lugar que, diante do resultado horroroso da Segunda Guerra Mundial, os filhos dos europeus - especialmente naqueles países em que o fascismo dominou - não perdoaram seus pais por terem permitido tamanha atrocidade e se dispuseram a tentar tomar a história em suas mãos e contribuir para o projeto social da emancipação humana. Conseguiram? Não completamente! Transferiram este desafio e esta responsabilidade para as gerações seguintes, mas não sem legado. Haja vista a efervescência político-social do período dos anos 50 ao final dos anos 70. E nós? Não estamos ainda à altura do desafio. Não temos condição de escapar: a radicalidade das dificuldades estão na mesma medida da demanda das suas soluções - para problemas radicais, saídas radicais.
O individualismo nos massacra e impede que tenhamos dimensão da exigência histórica. Isto lembra a imagem evocada por Walter Benjamin do "encontro secreto marcado entre as gerações precedentes e a nossa" na sua 2° tese sobre o conceito de história, que, por sua vez, alude à assertiva de Marx, segundo a qual "o morto domina o vivo".
Cada um de nós sofre a condição de mera personificação do capital e, diante das graves contradições, há aqueles que se põem em luta e há aqueles que esperam um milagre. Não há espaço para neutralidades: não assumir conscientemente posição é já tomar posição.
Carlos Drummond nos permite resgatar o sentido da força do coletivo, a transcendência do indivíduo no projeto societário. A "Carta a Stalingrado" é uma ode ao mesmo tempo linda e temorosa diante da ação coletiva de seres humanos em defesa de um mundo melhor. O horror da guerra não permite galanteios nem meias palavras. A crueza da imagem poética é a expressão do inescapável fardo do tempo histórico, como nos diz Mészáros.
Fica, então, o elogio de Drummond à força do povo soviético, que feriu de morte o nazismo e é muito pouco lembrado na história do século XX. Horror e glória mesclam-se neste canto quase elegíaco à esperança.

"Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem."

Andrade, Carlos Drummond. A Rosa do Povo. Record: São Paulo, 2001.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Dilema de Hamlet

"Por analogia, o dilema de Hamlet é o dilema da consciência militante. Vê o mundo se desmoronar e vive profundamente seu sofrimento. Quer realizar a profecia da justiça, mas se sente fraca como indivíduo diante das forças objetivas de um mundo que se apresenta de forma invencível. Oscila entre o delírio e a ação para a qual seu sofrimento a empurra. Nossas ações e nossa fúria seriam justificadas, ou espíritos malignos nos conduzem a atos vis enquanto buscamos a virtude? Não basta viver a vida para compreendê-la, é necessário duplicá-la na arte ou na ciência para conhecê-la de fato, para ter na mediação das palavras uma justificativa para nossos atos. Não basta que o movimento próprio da objetividade aponte claramente para a dissolução da ordem da propriedade privada, não basta que produza como pólo complementar do processo de acumulação crescente de valor a mais plena manifestação da miséria e desumanização, é necessário produzir o sujeito da transformação e sua consciência".

(Mauro Iasi, "O Dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência", Viramundo: São Paulo, 2002, p. 15).